domingo, 12 de abril de 2009

O que se leva da vida é a vida que se leva


A atitude inesperada de Adriano desconcerta o modelo hegemônico de sucesso, não só no mundo do futebol.



"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes


O estranho ímpar


"É muito fácil falar de Adriano. É muito difícil falar de Adriano.

É impossível não falar de Adriano.

O difícil é falar de Adriano sem cair no moralismo, no sentimentalismo ou na psicanálise de botequim.


Seu caso é daqueles que criam uma situação inédita, desconcertando o mundo do futebol, e não apenas ele.

Uma perplexidade comparável à gerada pelo craque Leandro em 1986, quando, às vésperas da Copa do Mundo do México, recusou-se, por motivos pessoais, a embarcar com a seleção brasileira.

Agora é Adriano que surpreende a boleirada, os torcedores e a mídia mundial, rejeitando os milhões de euros da Inter de Milão para ficar de bermuda e chinelo empinando pipa na Vila Cruzeiro.


Pululam as explicações fáceis, as respostas automáticas: é dor de corno, depressão, muita droga, birita, falta de estrutura, burrice pura e simples.

Seja qual for a explicação mais convincente, Adriano criou um fato.

Tomou uma atitude inesperada num mundo de reações tão programadas e previsíveis.

Foi na contramão da corrente hegemônica, desafinou o coro dos contentes.


Seu gesto inquieta e perturba porque, na sua aparente irracionalidade, nos faz questionar a lógica absurda que comanda nossas vidas.

João Cabral de Melo Neto dizia que, em sua poesia, evitava "embalar" o leitor numa música que o fizesse deslizar como quem roda por uma estrada bem asfaltada.

Preferia construir um caminho de pedras que, com seus solavancos, levasse o leitor a despertar.


Mal comparando, uma atitude como a de Adriano equivale a uma canelada, um tropeção, uma pedra com que se topa no meio do caminho.

Quem quiser que se defenda do susto respondendo com as frases feitas citadas lá em cima.

E quem tiver coragem que encare o Adriano que traz dentro de si.


Diz Carlos Drummond de Andrade que todas as festas são iguais, todas as reuniões, todos os velórios, todos os partidos, os clubes, as passeatas.

Tudo, enfim, é igual, menos os homens, pois "todo ser humano é um estranho ímpar"."


JOSÉ GERALDO COUTO



"De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça."
Cálice (Chico Buarque, Gilberto Gil)




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