quinta-feira, 16 de abril de 2009

Com a cabeça na crise

De um lado, o surto especulativo abala as certezas do mercado financeiro. De outro, desorienta quem apostava todas as fichas em ser reconhecido e alavancado pelo sucesso econômico.

Houve uma época, em um país, em que as pessoas vendiam seus bens em troca de flor. Não por romantismo, nem para compensar a emissão de gás carbônico na cara da natureza. Vendiam para especular. A época era 1636/1637; o país, a Holanda; a flor, a tulipa. A conseqüência: a corrida desenfreada atrás de sementes e bulbos e, na falta deles, títulos, sem que o povo atentasse para a debilidade da situação.É a primeira crise especulativa de que se tem nota, "um surto maníaco-depressivo".

Se a crise financeira atual tem raiz semelhante à do século 17, ela se espelha em parte na de 1929 e resvala na do Japão de 1990. Ou nos remete à fracassada estratégia militar da Linha Maginot, construída pelos franceses na 2ª Guerra para barrar o avanço alemão: ali deu errado porque se tentou solucionar o presente com táticas do passado. E agora? Repetiremos a fórmula?

Ab'Sáber, Mestre em Artes e Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, fala sobre as inseguranças econômicas e psíquicas do nosso tempo.


"Do ponto de vista psicanalítico, nem sempre existiu a noção de depressão como entidade clínica. Ela é recente, surge nos anos 70. De fato, a depressão existe hoje entre nós e tem níveis. Existe a depressão que os psiquiatras consideram doença orgânica. É um nível de paralisação global do sujeito e de seu desejo. Existe uma depressão cotidiana decorrente dos próprios modos de existência, do desgaste pelo excesso de trabalho e um fundo de vazio com o qual as pessoas precisam lidar. Há ainda a depressão dos não-incluídos na renda e no consumo. Agora, tem uma depressão interessante, que Melanie Klein (psicanalista austríaca) chama de posição depressiva. É a capacidade de suportar o luto pelo fim de realidades que não são reais. Essa é uma depressão produtiva, que cria uma capacidade de pensar. A crise contemporânea, o estouro dessa bolha, passa por uma elaboração dessa natureza.

Mas o que tenho visto no consultório é que a crise ainda não alcançou a vida real, está distante da realidade das pessoas. Elas se "desresponsabilizaram" de tal modo que, apesar de saberem que existe uma crise, isso se torna problema dos governos ou dos senhores do dinheiro e, portanto, não existe. É uma negação. As pessoas aprenderam a não ser sujeitos dos processos históricos que as envolvem. Elas só passam a se envolver quando perdem o emprego, por exemplo. Essa dimensão do espaço público não é mais um vértice da subjetivação das pessoas, o que é uma pobreza democrática.

A grande injustiça dessa crise é uma questão de política macroeconômica. É o Estado mobilizando massas de dinheiro para salvar empresas privadas para que elas se reponham na mesma ordem. Posso perguntar: "Por que não dão dinheiro para mim?"
Se o Estado é convocado para fazer uma reparação de ordem privada, porque isso é de interesse coletivo, é preciso pensar se não é possível convocar o Estado em outras esferas de necessidades coletivas. O papel do Estado é esse? É o reparador?

Evidentemente, o capitalismo contemporâneo não é o mesmo do século 17, mas o princípio é o mesmo. Agora, podemos olhar o sistema e seus limites. Não existe ainda força histórica para de fato pensar alterações nessa ordem de existência. Os privilegiados dessa ordem vão arrastá-la sempre para o mesmo eixo.

É que há um poder técnico imenso da humanidade em estoque, todo orientado pela gestão do mercado, que é a gestão do excesso da competição. Esse poder técnico precisa ser de algum modo libertado para outros planos. O ser humano é inteligente, tem tecnologia e pode operar essas potências com outra ordenação, mas o problema é que a ordem de todo o poder do mercado suga essas potências humanas. O mercado não é integralmente racional nem garantia de estabilidade.

Há uma noção importante em psicanálise que é o apego ao próprio sofrimento. Freud usou uma idéia forte e transcendental de compulsão à repetição. Uma crise como essa é um corte necessário para se pensar as possibilidades de alterar a ordem da repetição. Mas a gente ainda não tem estrutura subjetiva suficiente e fóruns políticos para dar conta da nossa situação global. Talvez essa crise possa começar a produzir esses espaços. A questão política interessante é se o próprio sistema vai voltar a se auto-regular ou se vai ser regulado de fora por uma regulamentação que é um campo de outra ordem.

No centro do capitalismo vai haver uma mudança de valores e objetos nos próximos anos. A ideologia de todo o poder e de toda a existência pelo hábito de consumir deixa pessoas doentes, tanto do ponto de vista dos que têm dinheiro quanto dos que não têm. Os que têm dinheiro e uma vida deformada por ele perdem todos os parâmetros de valores humanos; os que não têm e precisam existir no plano do dinheiro também se despedaçam nessa tensão. Essa cultura chegou a um limite agora. Acho que a retirada desse eixo econômico que não é real deve ter um impacto simbólico, abrindo espaço para outros campos de valores na economia, na política, na existência. Como isso vai repercutir no espaço público, a gente não sabe ainda. Mas seria interessante parar de conceber a vida como um ato de consumo mágico."



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