quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abençoados os que esquecem


O roteirista Charlie Kaufman é um sujeito curioso. Leu uma frase e um poema e deles escreveu um filme.

O primeiro texto que o inspirou foi o poema "Eloisa to Abelard", 366 versos escritos por Alexander Pope (1688-1744), sobre o caso verídico de um teólogo de 38 anos com a pupila de 18. De lá, sacou "Feliz é o destino da inocente vestal/ Esquecida pelo mundo que ela esqueceu/ Brilho eterno da mente sem lembrança!".

O segundo é uma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

A unir os textos, está o amor, a memória e a memória do amor.


Joel (Jim Carrey) descobre que Clementine (Kate Winslet), sua ex-namorada, submeteu-se a um tratamento psicológico no qual todas as lembranças dos dois foram apagadas, após anos de tentativas para que o relacionamento desse certo.

Frustrado com a idéia de estar apaixonado por alguém que nem se lembra dele, decide fazer o mesmo. Pouco depois, desiste da idéia de esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua vida em que ela não faz parte, provocando a mudança de outros acontecimentos que estão em sua memória.


"Responda rapidamente: quem você deletaria de sua memória sem pestanejar? Proponho que você anote esse nome em um papel e vá assistir a O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que levanta uma questão na qual (quase) nunca pensamos: existem memórias ruins?

Joel é um cara tímido que arruma uma namorada, Clementine, cuja personalidade é oposta à dele. Mesmo assim, os dois começam a namorar e, juntos, constroem uma história. Nenhuma novidade até aqui: quantos filmes têm um casal protagonista? Milhões. Só que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não é como qualquer um desses que você deve ter imaginado.

Depois que Joel e Clementine terminam, ela resolve contratar a empresa do doutor Howard Mierzwaik, que oferece um serviço um tanto quanto peculiar: ele desenvolveu uma técnica que deleta, literalmente, alguém de suas lembranças.Os técnicos entram na mente do contratante e apagam qualquer lembrança existente relacionada à pessoa escolhida. Clementine, claro, pede que eliminem Joel de sua vida.

Quando ele descobre a tramóia, não pensa duas vezes e contrata a empresa para fazer o mesmo serviço em sua mente, desta vez eliminando a ex-namorada.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não é somente uma experiência que brinca com a mente humana: é um filme triste. Portanto, se você resolver assisti-lo (e eu recomendo que realmente vá), prepare-se para ter vontade de entrar em suas próprias lembranças, buscando pessoas que passaram por sua vida e estão escondidos em cantos isolados de sua mente. E, claro, chegar à conclusão de que nenhum relacionamento é tão ruim a ponto de merecer ser sumariamente deletado da memória."

Angélica Bito



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