quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abençoados os que esquecem 2

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

De ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Residuo. Drummond.


LEMBRANÇAS TRAUMÁTICAS


"O "NEW York Times" de 6 de abril passado publicou um artigo de capa sobre pesquisas recentes graças às quais, um dia, será possível "editar memórias indesejáveis".

Apesar dos progressos da neurociência, estamos longe de entender exatamente o que é a memória.
Simplificando, uma lembrança parece depender de substâncias que constroem pontes entre células do cérebro, pontes silenciosas, mas que podem ser imediatamente solicitadas caso um evento venha a ativar uma das células.

Até aqui, pensava-se que uma centena de moléculas estivesse envolvida na construção dessas pontes entre células.
A nova pesquisa encontrou uma substância, a proteína PMKzeta, cujas moléculas, mais do que outras, constituem e fortalecem as ditas pontes que, uma vez ativadas, produziriam uma lembrança.

A pesquisa operou assim: escolheu ratos que tinham aprendido (de maneira permanente) a evitar pequenos choques elétricos no chão.
Logo, injetou, no próprio lugar da dita memória, uma droga, chamada ZIP, que inibe a PMKzeta. E eis que os ratos voltaram à estaca zero: agiam como se não conhecessem o terreno.

Em tese, se a coisa funcionar nos humanos, deveria ser possível consolidar as lembranças injetando no cérebro PMKzeta (ou estimulando sua produção). Imagine as aplicações possíveis na demência senil ou, simplesmente, no envelhecimento (sem contar que todos começariam a querer injeções de PMKzeta para melhorar a memória deles e a de seus filhos).

Até aqui, tudo bem. O problema está na outra aplicação possível da pesquisa.
O articulista do "Times" se entusiasmava com a ideia de que, um dia, com injeções cerebrais de ZIP, poderíamos produzir o esquecimento das lembranças desagradáveis ou traumáticas -claro, se a gente dominar o processo com precisão (para esquecer uma briga de casal, você não quer, ao mesmo tempo, perder a lembrança de seu primeiro beijo).

Essa atitude do articulista talvez seja (perigosamente) compartilhada por parte da comunidade científica; ela se funda na ideia de que um trauma seria uma lembrança que nos estorva por ser, ao mesmo tempo, excessiva e desnecessária.
Vistas do consultório de um psicoterapeuta, as coisas não estão bem assim.


Primeiro, a ideia de que a lembrança do trauma seria desnecessária e descartável é problemática.
Se você foi estuprado na infância, é provável que você tenha construído sua vida inteira ao redor da lembrança dessa violência sofrida.

Imaginemos, por exemplo, que, desde então, a figura que dá sentido à sua vida seja a da vítima: suprimir essa lembrança com uma injeção significaria suprimir um dos alicerces de sua personalidade e de sua existência.
O que sobrará de você sem aquela lembrança traumática?


Outro problema.
Tudo indica que um trauma não é uma lembrança nociva por ser forte demais; ao contrário, em geral, ele é um evento mal lembrado ou lembrado de maneira insuficiente.
Mesmo caso: você foi estuprada quando criança; em muitos casos, essa experiência é traumática porque é lembrada SÓ como uma violência penosa que você sofreu.
Você não memorizou, por exemplo, sua satisfação em se sentir objeto da atenção de um adulto ou mesmo sua descoberta culpada de emoções e sensações que lhe eram, até então, desconhecidas.
O fato de reativar essas lembranças não desculpa o adulto estuprador, mas, para você que sofreu a violência, o sentido da experiência passada muda bastante; talvez
não lhe seja mais necessário se conceber para sempre como vítima da vida.

Em suma, a solução do trauma não consiste em apagá-lo, mas, ao contrário, em lembrá-lo melhor.
Se quiséssemos usar a técnica da pesquisa citada, eu sugeriria, no lugar onde o trauma está registrado, injeções de PMKzeta para ajudar a memória, não de ZIP para apagá-la. O tempo das injeções cerebrais nos prontos-socorros ainda está longe.
Mas não é cedo para notar que a cura das experiências penosas de nossa vida não está no esquecimento, mas no esforço para se lembrar delas em toda sua incômoda complexidade."

Contardo Calligaris


Esquecer ou não, eis a questão

Segundo, os efeitos "removedores" da droga parecem ser vastos, e ainda não se sabe quantas memórias se perdem além daquela que foi testada (é um dos problemas de usar ratos em laboratórios; eles não respondem diretamente às perguntas).

Mas a questão que realmente importa me parece ser outra.

Lembro-me de uma palestra extremamente lúcida de Thomas Murray, especialista em ética que serviu no Comitê Olímpico Antidoping dos EUA, sobre a ética do uso de substâncias para modificar o desempenho e a memória.
Murray falava da pressão que os atletas sofrem para usar drogas e ilustrava suas opiniões com histórias de sua experiência com atletas de elite quando subitamente passou a comentar uma experiência pessoal, a mais dolorosa possível: a perda de sua filha de 16 anos, assassinada pelo namorado sociopata.

ZIP, na época, era uma possibilidade teórica.
Mas ele usaria uma substância como essa, que pudesse apagar as memórias dolorosas associadas à filha?
Não. A dor de perdê-la era uma parte integral do que lhe restava da filha: a memória.
Esquecer essa dor seria uma desonra à vida breve da filha e às marcas que ela deixou no pai.

Talvez algumas dores devam de fato ser deixadas para trás -objetivo, aliás, de tantas terapias: ressignificar as dores.
Por outro lado, se somos a soma de nossas memórias, recorrer ao ZIP seria passar uma borracha em parte de nossa essência: ZIP!

Suzana Herculano-Houzel



Um comentário:

  1. Chegará o dia em que não teremos memória, apenas consciência de si. E este dia está chegando, será quando fizermos 40 anos...rsrs.

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