segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sonhos sonhos são

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Humberto Gessinger


CREPÚSCULO


Crepúsculo é o mais recente fenômeno entre a garotada. Baseado no best seller homônimo de Stephenie Meyer, o filme reúne elementos que atraem em cheio os espectadores mais jovens: romance e fantasia, além de toques de suspense.

Dirigido por Catherine Hardwicke, Crepúsculo acompanha o romance entre Bella e Edward. Um romance adolescente – já complicado por definição - que ganha toques de dramaticidade por conta dele ser um vampiro.

Tudo ocorre na minúscula e chuvosa cidade de Forks, no Estado norte-americano de Washington, para onde ela se muda para morar com o pai. O tempo sempre nebuloso é terreno perfeito para que os vampiros Cullen, possam viver, incluindo Edward. Quando Bella se muda para lá, a atração entre os protagonistas é inevitável.


Edward é mais ou menos tudo que uma garota sonha (num mundo fantasioso, evidentemente): lindo, protege Bella e ainda tem superpoderes. Tem esse detalhe dele sempre ter de resistir a sugar todo o sangue da amada, mas isso é mero detalhe que Bella tenta superar. Por isso, existe essa tensão entre os dois que nunca passa.

Ao mesmo tempo em que respondem a instintos primitivos relacionados ao amor e ficarem juntos para sempre, Edward tem de superar seus próprios desejos vampirescos e não devorar sua amada. Literalmente. O conflito é transformado em tensão, sofrimento, dor e tudo isso que o amor provoca, mesmo nos seres humanos normais que não brilham como diamantes sob o sol como os vampiros.


ANGELA BRITO


ADORÁVEIS VAMPIROS


O S VAMPIROS estão conosco há séculos, mas eles entraram mesmo na cultura popular jovem no início dos anos 1980, com a onda "dark" e a cena "gótica". Logo, filmes e seriados inventaram o vampiro abstinente ou "vegetariano", que luta contra seus semelhantes e protege os humanos. Com isso, o vampiro deixou de povoar nossos pesadelos e se tornou objeto de sonhos e desejos.

Mas por que especialmente uma adolescente gostaria de amar ou, quem sabe, de ser um vampiro? Para responder, basta ler a maravilhosa saga escrita por Stephenie Meyer, que já conquistou milhões de leitores pelo mundo afora. Os dois primeiros volumes, ""Crepúsculo" e "Lua Nova", já existem em português (ed. Intrínseca); o terceiro ("Eclipse") e o quarto ("Amanhecer") não vão tardar.


Também, na semana passada, estreou no Brasil a versão cinematográfica de "Crepúsculo" (gostei, embora menos do que dos livros).
Enfim, só para lembrar: a saga conta a história de Bella, uma adolescente que se apaixona por Edward, um colega de classe que é diferente dos demais- entre outras coisas, como ela descobre, por ele ser um vampiro.

Claro, os amores entre humanos e vampiros são complicados. Por exemplo, os transportes da paixão podem ser perigosos (em português, ninguém duvidará que, à força de desejar, um dos amantes possa chegar a comer o outro). Isso, sem contar o descompasso pelo qual o vampiro permanecerá jovem para sempre, enquanto o humano envelhecerá. E uma pergunta para a qual não encontrei resposta: será que vampiro e humano podem se reproduzir sexualmente? Qual é o resultado do cruzamento?


Os românticos lerão na saga uma linda história em que o amor ultrapassa diferenças extremas e, por isso mesmo, deve transformar radicalmente os dois amantes. Outros pensarão nas situações em que um amante abnega seu amor e se separa pelo bem do amado ou da amada (se é que esse desprendimento é possível no amor, será que alguém pode aceitar ser abandonado pelo seu próprio bem?
Questão abstrata? Nem tanto: pense nos casos em que um dos dois se descobre portador de uma doença transmissível e potencialmente letal).


Pergunta: Edward tem muito charme, mas por que uma adolescente se apaixonaria por um vampiro e ambicionaria se transformar, ela mesma, em vampiro? Há uma longa lista de razões pelas quais um humano, e sobretudo um adolescente, poderia gostar de ser vampiro, mas a mais óbvia é que os vampiros conseguem crescer, acumular experiência, viver intensamente a eternidade inteira, tudo isso sem ser escravos de um corpo que, além de mortal, é sempre, por assim dizer, excessivo- um pouco asqueroso.


O adolescente, empurrado para a bulimia por seu crescimento desordenado, se fecha na anorexia (ou tenta vomitar o que comeu) porque a perspectiva de ter um dia um corpo adulto lhe inspira repulsa: os corpos adultos são vulgares, com seu cheiro, seus roncos de barriga e de sono, suas bocas abertas mastigando e, na hora do desejo, a vontade de enfiar mãos e órgãos nos suores entre pernas e orifícios, ou mesmo de misturar línguas, salivas e bocas.

Convenhamos: uma mordida no pescoço seria muito mais elegante.
Os lobisomens (que chegam no segundo volume da saga de Meyer e, portanto, estarão no próximo filme) devoram seus alimentos, desmaiam na hora de dormir e estão sempre próximos de perder o controle de si.

O adolescente é um lobisomem que sonha com a compostura dos vampiros, os quais, ao contrário, não comem, não precisam respirar nem dormir, exalam um cheiro e um hálito sublimes porque, gélidos, eles não carburam, não apodrecem, não defecam (aliás, será que urinam?).


Em suma, o vampiro é livre das indignidades dos organismos vivos, ele não precisa daqueles envergonhados "momentos humanos" em que Bella se esconde de Edward para cuidar de seu corpo (carcaça?).
Não sei se Bella se tornará ou não um vampiro (saberemos, imagino, no fim da saga). Mas estou convencido de que muitos (adolescentes e adultos) estão contemplando essa possibilidade.

É que faz bastante tempo que a gente procura um jeito de não ser "apenas" um corpo mortal, vulgar e malcheiroso. Já experimentamos de tudo: desde a fé na existência autônoma da alma até a depilação a laser, o desodorante e o fio dental três vezes por dia. Por que não o vampirismo?


CONTARDO CALLIGARIS



quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abençoados os que esquecem 2

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

De ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Residuo. Drummond.


LEMBRANÇAS TRAUMÁTICAS


"O "NEW York Times" de 6 de abril passado publicou um artigo de capa sobre pesquisas recentes graças às quais, um dia, será possível "editar memórias indesejáveis".

Apesar dos progressos da neurociência, estamos longe de entender exatamente o que é a memória.
Simplificando, uma lembrança parece depender de substâncias que constroem pontes entre células do cérebro, pontes silenciosas, mas que podem ser imediatamente solicitadas caso um evento venha a ativar uma das células.

Até aqui, pensava-se que uma centena de moléculas estivesse envolvida na construção dessas pontes entre células.
A nova pesquisa encontrou uma substância, a proteína PMKzeta, cujas moléculas, mais do que outras, constituem e fortalecem as ditas pontes que, uma vez ativadas, produziriam uma lembrança.

A pesquisa operou assim: escolheu ratos que tinham aprendido (de maneira permanente) a evitar pequenos choques elétricos no chão.
Logo, injetou, no próprio lugar da dita memória, uma droga, chamada ZIP, que inibe a PMKzeta. E eis que os ratos voltaram à estaca zero: agiam como se não conhecessem o terreno.

Em tese, se a coisa funcionar nos humanos, deveria ser possível consolidar as lembranças injetando no cérebro PMKzeta (ou estimulando sua produção). Imagine as aplicações possíveis na demência senil ou, simplesmente, no envelhecimento (sem contar que todos começariam a querer injeções de PMKzeta para melhorar a memória deles e a de seus filhos).

Até aqui, tudo bem. O problema está na outra aplicação possível da pesquisa.
O articulista do "Times" se entusiasmava com a ideia de que, um dia, com injeções cerebrais de ZIP, poderíamos produzir o esquecimento das lembranças desagradáveis ou traumáticas -claro, se a gente dominar o processo com precisão (para esquecer uma briga de casal, você não quer, ao mesmo tempo, perder a lembrança de seu primeiro beijo).

Essa atitude do articulista talvez seja (perigosamente) compartilhada por parte da comunidade científica; ela se funda na ideia de que um trauma seria uma lembrança que nos estorva por ser, ao mesmo tempo, excessiva e desnecessária.
Vistas do consultório de um psicoterapeuta, as coisas não estão bem assim.


Primeiro, a ideia de que a lembrança do trauma seria desnecessária e descartável é problemática.
Se você foi estuprado na infância, é provável que você tenha construído sua vida inteira ao redor da lembrança dessa violência sofrida.

Imaginemos, por exemplo, que, desde então, a figura que dá sentido à sua vida seja a da vítima: suprimir essa lembrança com uma injeção significaria suprimir um dos alicerces de sua personalidade e de sua existência.
O que sobrará de você sem aquela lembrança traumática?


Outro problema.
Tudo indica que um trauma não é uma lembrança nociva por ser forte demais; ao contrário, em geral, ele é um evento mal lembrado ou lembrado de maneira insuficiente.
Mesmo caso: você foi estuprada quando criança; em muitos casos, essa experiência é traumática porque é lembrada SÓ como uma violência penosa que você sofreu.
Você não memorizou, por exemplo, sua satisfação em se sentir objeto da atenção de um adulto ou mesmo sua descoberta culpada de emoções e sensações que lhe eram, até então, desconhecidas.
O fato de reativar essas lembranças não desculpa o adulto estuprador, mas, para você que sofreu a violência, o sentido da experiência passada muda bastante; talvez
não lhe seja mais necessário se conceber para sempre como vítima da vida.

Em suma, a solução do trauma não consiste em apagá-lo, mas, ao contrário, em lembrá-lo melhor.
Se quiséssemos usar a técnica da pesquisa citada, eu sugeriria, no lugar onde o trauma está registrado, injeções de PMKzeta para ajudar a memória, não de ZIP para apagá-la. O tempo das injeções cerebrais nos prontos-socorros ainda está longe.
Mas não é cedo para notar que a cura das experiências penosas de nossa vida não está no esquecimento, mas no esforço para se lembrar delas em toda sua incômoda complexidade."

Contardo Calligaris


Esquecer ou não, eis a questão

Segundo, os efeitos "removedores" da droga parecem ser vastos, e ainda não se sabe quantas memórias se perdem além daquela que foi testada (é um dos problemas de usar ratos em laboratórios; eles não respondem diretamente às perguntas).

Mas a questão que realmente importa me parece ser outra.

Lembro-me de uma palestra extremamente lúcida de Thomas Murray, especialista em ética que serviu no Comitê Olímpico Antidoping dos EUA, sobre a ética do uso de substâncias para modificar o desempenho e a memória.
Murray falava da pressão que os atletas sofrem para usar drogas e ilustrava suas opiniões com histórias de sua experiência com atletas de elite quando subitamente passou a comentar uma experiência pessoal, a mais dolorosa possível: a perda de sua filha de 16 anos, assassinada pelo namorado sociopata.

ZIP, na época, era uma possibilidade teórica.
Mas ele usaria uma substância como essa, que pudesse apagar as memórias dolorosas associadas à filha?
Não. A dor de perdê-la era uma parte integral do que lhe restava da filha: a memória.
Esquecer essa dor seria uma desonra à vida breve da filha e às marcas que ela deixou no pai.

Talvez algumas dores devam de fato ser deixadas para trás -objetivo, aliás, de tantas terapias: ressignificar as dores.
Por outro lado, se somos a soma de nossas memórias, recorrer ao ZIP seria passar uma borracha em parte de nossa essência: ZIP!

Suzana Herculano-Houzel



Abençoados os que esquecem


O roteirista Charlie Kaufman é um sujeito curioso. Leu uma frase e um poema e deles escreveu um filme.

O primeiro texto que o inspirou foi o poema "Eloisa to Abelard", 366 versos escritos por Alexander Pope (1688-1744), sobre o caso verídico de um teólogo de 38 anos com a pupila de 18. De lá, sacou "Feliz é o destino da inocente vestal/ Esquecida pelo mundo que ela esqueceu/ Brilho eterno da mente sem lembrança!".

O segundo é uma frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): "Abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos".

A unir os textos, está o amor, a memória e a memória do amor.


Joel (Jim Carrey) descobre que Clementine (Kate Winslet), sua ex-namorada, submeteu-se a um tratamento psicológico no qual todas as lembranças dos dois foram apagadas, após anos de tentativas para que o relacionamento desse certo.

Frustrado com a idéia de estar apaixonado por alguém que nem se lembra dele, decide fazer o mesmo. Pouco depois, desiste da idéia de esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua vida em que ela não faz parte, provocando a mudança de outros acontecimentos que estão em sua memória.


"Responda rapidamente: quem você deletaria de sua memória sem pestanejar? Proponho que você anote esse nome em um papel e vá assistir a O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que levanta uma questão na qual (quase) nunca pensamos: existem memórias ruins?

Joel é um cara tímido que arruma uma namorada, Clementine, cuja personalidade é oposta à dele. Mesmo assim, os dois começam a namorar e, juntos, constroem uma história. Nenhuma novidade até aqui: quantos filmes têm um casal protagonista? Milhões. Só que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não é como qualquer um desses que você deve ter imaginado.

Depois que Joel e Clementine terminam, ela resolve contratar a empresa do doutor Howard Mierzwaik, que oferece um serviço um tanto quanto peculiar: ele desenvolveu uma técnica que deleta, literalmente, alguém de suas lembranças.Os técnicos entram na mente do contratante e apagam qualquer lembrança existente relacionada à pessoa escolhida. Clementine, claro, pede que eliminem Joel de sua vida.

Quando ele descobre a tramóia, não pensa duas vezes e contrata a empresa para fazer o mesmo serviço em sua mente, desta vez eliminando a ex-namorada.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças não é somente uma experiência que brinca com a mente humana: é um filme triste. Portanto, se você resolver assisti-lo (e eu recomendo que realmente vá), prepare-se para ter vontade de entrar em suas próprias lembranças, buscando pessoas que passaram por sua vida e estão escondidos em cantos isolados de sua mente. E, claro, chegar à conclusão de que nenhum relacionamento é tão ruim a ponto de merecer ser sumariamente deletado da memória."

Angélica Bito



sexta-feira, 17 de abril de 2009

Menos desodorante, mais laxante

Oriunda do latim, o termo crise tem a mesma equivalência da palavra vento.
Indica, assim, um estágio de alternância, no qual uma vez trasncorrido diferencia-se do que costumava ser.
Não existe possibilidade de retorno aos antigos padrões.


"Ao afetar os bolsos dos cidadãos, a crise econômica acaba tendo reflexos também nos corpos e mentes das pessoas.

Um psicólogo analisou as listas de músicas mais tocadas e concluiu que, em tempos de crise, as pessoas preferem ouvir canções longas, lentas com temas mais profundos, enquanto em fase de bonança os hits preferidos são mais rápidos e animados.

Um estudioso dos hábitos de consumo contatou que, em tempos de prosperidade econômica, cresce, por exemplo, a venda de desodorantes, porque as pessoas saem mais de casa, e em tempos de recessão aumenta o consumo de laxantes – porque as pessoas, sob estresse, acabam sofrendo mais de prisão de ventre, explica o especialista.

Um estudo feito entre plantadores de café, na Colômbia, mostrou, por exemplo, que a queda abrupta do preço do produto tem efeitos na redução da mortalidade infantil. A explicação é que nessa situação os pais têm mais tempo para ficar em casa e cuidar dos filhos."



Na área econômica, crise é o ponto de transição entre um período de prosperidade e outro de depressão.Crise econômica é a ruptura periódica do equilíbrio entre produção e consumo, que traz como conseqüências desemprego generalizado, falências, alterações dos preços e depreciação dos valores circulantes.

Na Sociologia, crise é uma situação grave em que os acontecimentos da vida social, rompendo padrões tradicionais, perturbam a organização de alguns ou de todos os grupos integrados na sociedade.

No campo da Psicologia, em particular da Psicologia do Desenvolvimento, o conceito de crise é explicado como toda a situação de mudança em nível biológico, psicológico ou social, que exige da pessoa ou do grupo, um esforço suplementar para manter o equilíbrio ou estabilidade emocional. Corresponde a momentos da vida de uma pessoa ou de um grupo em que há ruptura na sua homeostase psíquica e perda ou mudança dos elementos estabilizadores habituais.



"Toda a crise conduz necessariamente a um aumento da vulnerabilidade, mas nem toda a crise é necessariamente um momento de risco.

Pode, eventualmente, evoluir negativamente quando os recursos pessoais estão diminuidos e a intensidade do stress vivenciado pela pessoa ultrapassa a sua capacidade de adaptação e de reação.

Mas a crise é vista, de igual modo, como uma ocasião de crescimento. A evolução favorável de uma crise, conduz a um crescimento, à criação de novos equilíbrios, ao reforço da pessoa e da sua capacidade de reação a situações menos agradáveis.

Assim, a crise evolui no sentido da regressão, quando a pessoa não a consegue ultrapassar, ou no sentido do desenvolvimento, quando a crise é favoravelmente vivida."




quinta-feira, 16 de abril de 2009

Com a cabeça na crise

De um lado, o surto especulativo abala as certezas do mercado financeiro. De outro, desorienta quem apostava todas as fichas em ser reconhecido e alavancado pelo sucesso econômico.

Houve uma época, em um país, em que as pessoas vendiam seus bens em troca de flor. Não por romantismo, nem para compensar a emissão de gás carbônico na cara da natureza. Vendiam para especular. A época era 1636/1637; o país, a Holanda; a flor, a tulipa. A conseqüência: a corrida desenfreada atrás de sementes e bulbos e, na falta deles, títulos, sem que o povo atentasse para a debilidade da situação.É a primeira crise especulativa de que se tem nota, "um surto maníaco-depressivo".

Se a crise financeira atual tem raiz semelhante à do século 17, ela se espelha em parte na de 1929 e resvala na do Japão de 1990. Ou nos remete à fracassada estratégia militar da Linha Maginot, construída pelos franceses na 2ª Guerra para barrar o avanço alemão: ali deu errado porque se tentou solucionar o presente com táticas do passado. E agora? Repetiremos a fórmula?

Ab'Sáber, Mestre em Artes e Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo, fala sobre as inseguranças econômicas e psíquicas do nosso tempo.


"Do ponto de vista psicanalítico, nem sempre existiu a noção de depressão como entidade clínica. Ela é recente, surge nos anos 70. De fato, a depressão existe hoje entre nós e tem níveis. Existe a depressão que os psiquiatras consideram doença orgânica. É um nível de paralisação global do sujeito e de seu desejo. Existe uma depressão cotidiana decorrente dos próprios modos de existência, do desgaste pelo excesso de trabalho e um fundo de vazio com o qual as pessoas precisam lidar. Há ainda a depressão dos não-incluídos na renda e no consumo. Agora, tem uma depressão interessante, que Melanie Klein (psicanalista austríaca) chama de posição depressiva. É a capacidade de suportar o luto pelo fim de realidades que não são reais. Essa é uma depressão produtiva, que cria uma capacidade de pensar. A crise contemporânea, o estouro dessa bolha, passa por uma elaboração dessa natureza.

Mas o que tenho visto no consultório é que a crise ainda não alcançou a vida real, está distante da realidade das pessoas. Elas se "desresponsabilizaram" de tal modo que, apesar de saberem que existe uma crise, isso se torna problema dos governos ou dos senhores do dinheiro e, portanto, não existe. É uma negação. As pessoas aprenderam a não ser sujeitos dos processos históricos que as envolvem. Elas só passam a se envolver quando perdem o emprego, por exemplo. Essa dimensão do espaço público não é mais um vértice da subjetivação das pessoas, o que é uma pobreza democrática.

A grande injustiça dessa crise é uma questão de política macroeconômica. É o Estado mobilizando massas de dinheiro para salvar empresas privadas para que elas se reponham na mesma ordem. Posso perguntar: "Por que não dão dinheiro para mim?"
Se o Estado é convocado para fazer uma reparação de ordem privada, porque isso é de interesse coletivo, é preciso pensar se não é possível convocar o Estado em outras esferas de necessidades coletivas. O papel do Estado é esse? É o reparador?

Evidentemente, o capitalismo contemporâneo não é o mesmo do século 17, mas o princípio é o mesmo. Agora, podemos olhar o sistema e seus limites. Não existe ainda força histórica para de fato pensar alterações nessa ordem de existência. Os privilegiados dessa ordem vão arrastá-la sempre para o mesmo eixo.

É que há um poder técnico imenso da humanidade em estoque, todo orientado pela gestão do mercado, que é a gestão do excesso da competição. Esse poder técnico precisa ser de algum modo libertado para outros planos. O ser humano é inteligente, tem tecnologia e pode operar essas potências com outra ordenação, mas o problema é que a ordem de todo o poder do mercado suga essas potências humanas. O mercado não é integralmente racional nem garantia de estabilidade.

Há uma noção importante em psicanálise que é o apego ao próprio sofrimento. Freud usou uma idéia forte e transcendental de compulsão à repetição. Uma crise como essa é um corte necessário para se pensar as possibilidades de alterar a ordem da repetição. Mas a gente ainda não tem estrutura subjetiva suficiente e fóruns políticos para dar conta da nossa situação global. Talvez essa crise possa começar a produzir esses espaços. A questão política interessante é se o próprio sistema vai voltar a se auto-regular ou se vai ser regulado de fora por uma regulamentação que é um campo de outra ordem.

No centro do capitalismo vai haver uma mudança de valores e objetos nos próximos anos. A ideologia de todo o poder e de toda a existência pelo hábito de consumir deixa pessoas doentes, tanto do ponto de vista dos que têm dinheiro quanto dos que não têm. Os que têm dinheiro e uma vida deformada por ele perdem todos os parâmetros de valores humanos; os que não têm e precisam existir no plano do dinheiro também se despedaçam nessa tensão. Essa cultura chegou a um limite agora. Acho que a retirada desse eixo econômico que não é real deve ter um impacto simbólico, abrindo espaço para outros campos de valores na economia, na política, na existência. Como isso vai repercutir no espaço público, a gente não sabe ainda. Mas seria interessante parar de conceber a vida como um ato de consumo mágico."



segunda-feira, 13 de abril de 2009

O bar do Seu Zé

É de conhecimento público que os Estados Unidos estão passando por uma enorme crise financeira.
O que começou com uma crise no mercado imobiliário americano evoluiu ao ponto de tornar-se uma das maiores da história, perdendo apenas (por enquanto) para a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.

Para entender como a causa próxima da crise, nada melhor do que o Seu Zé...


O seu Zé tem um bar com clientes antigos e fieís.

Um belo dia decide que vai vender cachaça 'na caderneta' aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados.

A turma se anima e o boteco vira um sucesso.

Como vai vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o que os pinguços pagam pelo risco do crédito).

O gerente do banco do seu Zé, um ousado administrador formado em curso de emibiêi na universidade de Mass of Two Shits, decide que as dívidas da caderneta do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia.

A moçada bebe ainda mais.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em títulos CDB, CCTU, LDU, EMTU, CDU-B.VIAGEM, CDO, CCD, UTI, DST, SOS, SUS, DORT, etc.........ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente oque quer dizer.


Esses instrumentos financeiros alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece, mas são as tais cadernetas do seu Zé. Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.


Até que um dia a mídia, sempre a mídia, resolve desconfiar da magia daquele negócio.

Uma nota no jornal mostra que os pinguços nunca terão a menor condição de pagar aquela dívida e que a caderneta não passava de uma ilusão.

Toda a cadeia vai para o buraco, menos os pinguços, que, indignados com a crise de confiança neles, resolvem simplesmente mudar de bar...





domingo, 12 de abril de 2009

O que se leva da vida é a vida que se leva


A atitude inesperada de Adriano desconcerta o modelo hegemônico de sucesso, não só no mundo do futebol.



"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes


O estranho ímpar


"É muito fácil falar de Adriano. É muito difícil falar de Adriano.

É impossível não falar de Adriano.

O difícil é falar de Adriano sem cair no moralismo, no sentimentalismo ou na psicanálise de botequim.


Seu caso é daqueles que criam uma situação inédita, desconcertando o mundo do futebol, e não apenas ele.

Uma perplexidade comparável à gerada pelo craque Leandro em 1986, quando, às vésperas da Copa do Mundo do México, recusou-se, por motivos pessoais, a embarcar com a seleção brasileira.

Agora é Adriano que surpreende a boleirada, os torcedores e a mídia mundial, rejeitando os milhões de euros da Inter de Milão para ficar de bermuda e chinelo empinando pipa na Vila Cruzeiro.


Pululam as explicações fáceis, as respostas automáticas: é dor de corno, depressão, muita droga, birita, falta de estrutura, burrice pura e simples.

Seja qual for a explicação mais convincente, Adriano criou um fato.

Tomou uma atitude inesperada num mundo de reações tão programadas e previsíveis.

Foi na contramão da corrente hegemônica, desafinou o coro dos contentes.


Seu gesto inquieta e perturba porque, na sua aparente irracionalidade, nos faz questionar a lógica absurda que comanda nossas vidas.

João Cabral de Melo Neto dizia que, em sua poesia, evitava "embalar" o leitor numa música que o fizesse deslizar como quem roda por uma estrada bem asfaltada.

Preferia construir um caminho de pedras que, com seus solavancos, levasse o leitor a despertar.


Mal comparando, uma atitude como a de Adriano equivale a uma canelada, um tropeção, uma pedra com que se topa no meio do caminho.

Quem quiser que se defenda do susto respondendo com as frases feitas citadas lá em cima.

E quem tiver coragem que encare o Adriano que traz dentro de si.


Diz Carlos Drummond de Andrade que todas as festas são iguais, todas as reuniões, todos os velórios, todos os partidos, os clubes, as passeatas.

Tudo, enfim, é igual, menos os homens, pois "todo ser humano é um estranho ímpar"."


JOSÉ GERALDO COUTO



"De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça."
Cálice (Chico Buarque, Gilberto Gil)




sábado, 11 de abril de 2009

Fios soltos


O anseio paranóico por um sentido enriquece nossa vida.
Mesmo a procura do sentido (que muitas vezes nem é encontrado) pode dar sentido, durante algum tempo, à nossa existência.
O fato é que, por mais que a gente teça nossa teia de aranha, sempre há fios soltos.


A CASA DO OSCAR


A casa do Oscar era o sonho da família.
Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar.
Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar.
Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi.

Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida.

Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.


Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar!
Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar.

Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.

Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe.

Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.


Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim.
Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim.
Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.


CHICO BUARQUE


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Do que somos capazes ?!

Adaptação do premiado livro escrito por José Saramago, mostra uma inexplicável epidemia chamada de "cegueira branca", já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país.

À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários.

Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico, que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.



"O pretexto para análises existenciais parte de uma inexplicável e aterradora epidemia de cegueira. De um segundo para outro, sem nenhum fator lógico, uma após as outras as pessoas perdem a visão, e passam a enxergar tudo branco, e não preto, como seria a cegueira convencional. Sem distinção de cor, sexo, idade ou classe social. A doença equaliza a todos. Não há mais ricos e pobres, negros ou brancos. Só cegos. Com a única – e também inexplicável - exceção da personagem de Julianne Moore, uma mulher sem nome. Aliás, nenhum personagem tem nome no filme, o que enfatiza ainda mais o caráter nivelador da epidemia. A cegueira deixa mais claras as personalidades dos envolvidos. O verdadeiro interior de cada um vem à tona, para o bem e para o mal. Em meio à ignorância sobre o acontecido, a sociedade tenta se reorganizar, agora sob novas e implacáveis regras. Camadas de poder se (re)estabelecem. As leituras e sub-leituras da situação são inúmeras e instigantes."

Celso Sabadin




"GOSTO DOS romances e dos filmes apocalípticos, ou seja, das histórias em que algum tipo de fim do mundo (guerra nuclear, invasão extraterrestre, epidemia etc.) nos força a encarar uma versão laica e íntima do Juízo Final. Nessa versão, Deus não avalia nosso passado, mas, enquanto o mundo desaba, nosso desempenho mostra quem somos realmente. No desamparo, quando o tecido social se esfarela e as normas perdem força e valor, conhecemos, enfim, nosso estofo "verdadeiro". Somos capazes do melhor ou do pior: o apocalipse nos testa e nos revela. Os personagens de "Ensaio sobre a Cegueira" quase não têm história prévia, assim como a cidade em que os fatos acontecem (uma mistura de São Paulo com Toronto) é uma cidade moderna qualquer, cujas particularidades não contam. Essa, justamente, é a beleza do gênero: o surgimento quase abstrato de uma situação extrema, em que se trata de escolher e agir a partir de nada. O passado, o lugar não contam: os personagens são definidos por suas escolhas aqui e agora. A oposição caricata dos bons e dos ruins expressa a incerteza do espectador, do leitor e do autor: 'Você, se, por uma misteriosa epidemia, o mundo ficar cego, se o reino da lei acabar e começar a idade da luta pela sobrevivência, de que lado estará? Do lado dos que inventarão novas formas de abusos ou dos que descobrirão novas formas de respeito e de vida comum? Uma vez perdida a visão, o que você enxergará no seu vizinho: mais uma mulher para estuprar e um otário para explorar ou um irmão, perdido que nem você?'"

CONTARDO CALLIGARIS


Só um amor não concretizado pode ser romântico


Vicky e Cristina são duas amigas que vão passar uma temporada em Barcelona.
Vicky é prática, quer um casamento seguro e uma vida tradicional ao lado de um marido com estabilidade financeira.
Cristina é uma mulher que não sabe o que quer, mas sabe muito bem o que não quer: levar uma vida pequena burguesa e careta.
Ambas se envolvem com Juan Antonio.



Com muita leveza e muito bom humor, o filme me levou a pensar nos percalços da vida amorosa. A história do verão em Barcelona de Vicky e Cristina é um pequeno tratado do amor-paixão: os espectadores terão o prazer (ou desprazer) de se reconhecer em algum lugar do leque de experiências amorosas que o filme apresenta -é um leque pequeno, mas do qual escapamos pouco. Sem resumir, eis umas notas:

1) Os casais que se amam de paixão, cujos parceiros parecem ser feitos um para o outro, em regra, acabam tentando se matar -com faca, revólver ou qualquer outro instrumento (cf. Juan Antonio e Maria Emilia). É porque, se o outro me completa e vice-versa, o risco é que nenhum de nós sobreviva à nossa união -ao menos, não como ente separado e distinto. Mas, por mais que seja ameaçadora, a paixão amorosa é uma tentação irresistível (cf. Cristina, Vicky, Judy) por uma razão simples: nas narrativas de nossa cultura, ela é o protótipo ideal da experiência plena, da vida intensamente vivida.


2) Por sorte ou não, o amor-paixão é raro. A maioria de nós vive relações menos "interessantes" e menos fatais -relações em que a gente se preocupa em criar os filhos, decorar a casa, ganhar um dinheiro ou jogar golfe (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark). Não seria tão mal, salvo pelo detalhe seguinte: em geral, nesses casais "normais", ao menos um dos parceiros vive com a sensação de que sua escolha amorosa é resignada, fruto de um comodismo medroso: "O outro não é bem o que eu queria; culpa minha, que não tive a coragem de me arriscar a amar..."

3) Os que parecem não idealizar o amor-paixão passam o tempo se protegendo contra ele. Deve ser por isto que a "normalidade" amorosa pode ser insuportavelmente chata: porque ela exige a construção esforçada de defesas contra a paixão -argumentos morais e sociais, sempre mais "razoáveis" do que racionais (cf. Mark, Doug). Num casal, quem critica a doidice da paixão não parece sábio aos olhos de sua parceira ou de seu parceiro; ao contrário, ele parece, quase sempre, pequeno e um pouco covarde (cf. Vicky e Doug, Judy e Mark).

4) A paixão não é uma coisa que a gente possa encontrar saindo pelo mundo como um turista da vida (cf. Cristina). Pois não basta esbarrar na paixão; ainda é preciso encará-la quando ela se apresenta.
Pode ser que, um dia, se ela conseguir matar Juan Antonio com um tiro certeiro, Maria Emilia seja internada ou presa. Pode ser que Juan Antonio seja um sujeito amoral e, por isso, perigoso. Pode ser que Vicky seja desesperadamente normal, trocando a chance de amar por uma casa num subúrbio norte-americano (estou sendo injusto com Vicky: na verdade ela tenta...). Mas, para mim, a mais "patológica" de todas as personagens do filme é Cristina. Sua aparente abertura para a vida ("Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria", narra a voz em off) é apenas uma versão "bonita" e literária de sua "insatisfação crônica" (diagnosticada por Maria Emília, com razão). Nisso, Cristina é muito próxima da gente: ela quer e consegue brincar com a paixão, mas sem perder a ilusão da liberdade ou o sonho do que ela poderia encontrar na próxima esquina. Por isso, sua voracidade é a do turista: tira muitas fotos pelo mundo afora, mas será que ela se deixa tocar pela vida?

5) Disse que "Vicky Cristina Barcelona" trata dos percalços da vida amorosa com leveza e bom humor; de fato, saí do cinema sorrindo, e não era o único. Mas a amiga que me acompanhava comentou: "Adorei, mas é um filme triste". "Como assim?", estranhei. Ela respondeu, com razão: "É um filme triste porque os personagens se apaixonam, vivem sentimentos fortes, mas, no fim, tudo isso não transforma ninguém. Vicky e Cristina vão embora iguais ao que elas eram no começo, sobretudo Cristina...".


Minha amiga tinha razão. O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona...


(CONTARDO CALLIGARIS)


Oração ao Tempo

Oração ao Tempo
Caetano Veloso


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...


Tempo Rei


Tempo Rei
Gilberto Gil


Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei



COMENTÁRIO DE GILBERTO GIL
"Tempo Rei é a minha versão para uma questão colocada em Oração ao Tempo, onde a frase-chave para mim é: 'Quando eu tiver saído para fora do teu círculo, não serei nem terás sido' - quer dizer: o tempo desaparecerá, eu desaparecerei; o tempo e aquele que o inventa, o ego, estarão ambos desinventados, portanto. Na música do Caetano parece haver um niilismo essencial, um mergulho no nada absoluto e uma resignação plena, orgulhosa e altiva com a extinção. Na minha tem uma coisa mais cristã; uma, quem sabe, quimera; um vago desejo de permanência e de transformação.

"Em todo o meu filosofar popular sobre o existente e o eterno, há sempre uma possível porta aberta pra algo pós. Para mim é muito difícil não crer no pós sem não crer no pré. Como me é absolutamente impossível anular a existência do anterior a mim, também me é muito difícil aceitar a inexistência do posterior; para mim são coisas iguais. Assim como eu 'não posso esquecer que um dia houve em que eu não estava aqui' (Cada Tempo em Seu Lugar), um dia haverá em que eu não estarei aqui: mas esse dia haverá; haverá o ser das coisas que serão independentes de mim então. Eu não imagino a extinção de tudo com a extinção do meu ego. A morte de todas as pessoas que nós conhecemos até aqui não extinguiu o mundo - nem o que foi anterior a elas, nem o que lhes foi posterior; por que esse milagre aconteceria justo comigo? Eu levaria tudo comigo?

"Aí reside para mim um problema do existencialismo. Aí, e só aí, eu esbarro um pouco em Sartre, apesar do meu grande amor por ele, e ele não me convence. Sartre morreu e o mundo está aí! Por isso à sua filosofia eu chamaria mais de individualismo do que existencialismo. Um existencialismo individualista, não algo universalizável."

*

O provérbio "água mole em pedra dura etc." fala da eficácia que as coisas acabam tendo ao durarem no tempo. Na letra, a omissão do final do ditado, "até que fura" (cujo significado é o da ação de interferência no mundo, dentro do plano do tempo "real", cronológico), e a sua substituição pela expressão "que não restará nem pensamento", além de servirem para romper a expectativa de enunciação completa de um dito conhecido, servem, segundo Gil, sobretudo ao seu propósito de sugerir a idéia de corte da dimensão do tempo enquanto duração para a dimensão do tempo "enquanto eternidade sorvedora de todas as suas dimensões, para a sua transdimensionalização"; de saída "do tempo-existência para o tempo-essência (o eterno)"; do tempo para o "atempo" - onde, nas palavras do compositor, "já nem pensar é possível".