quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,

Você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 26 de dezembro de 2009

Minha inveja, meu sucesso


Pesquisador se inspira na seleção natural para entender porque atitude invejosa existe entre seres humanos

RICARDO MIOTO

Imagine que você está passeando com sua namorada ou seu namorado. Passa, então, alguém mais bonito e aparentemente mais rico do que você. Se a sua primeira reação é soltar um "ele é gay" (caso você seja um homem) ou um "ela é uma vagabunda" (caso você seja uma mulher), parabéns. O seu comportamento invejoso é o combustível do sucesso humano.

Todos as emoções humanas, dizem os psicólogos que se interessam pela seleção natural, têm uma boa razão para existir. São consequência de milhões de anos de adaptação.

O instinto mais fácil de compreender provavelmente é a vontade de fazer sexo. Quem sentia deixou muito mais descendentes, passando essa característica adiante. Os filhos, por sua vez, tiveram outro punhado de filhos que gostavam de sexo, e assim por diante.

Outros comportamentos têm explicação menos óbvia. É o caso da inveja. Como ela poderia ser um comportamento vantajoso, a ponto de estar tão presente entre humanos?

Quem explica é o psicólogo evolutivo David Buss, da Universidade do Texas, em vários trabalhos recentes.
Ninguém gosta de sentir inveja, de perceber que alguém, em algum sentido, é superior. É um sentimento desagradável, por mais que se tente disfarçar.

Indivíduos invejosos, portanto, sempre tiveram um estímulo grande para se esforçar para alcançar os invejados -e, assim, acabar com a sensação incômoda de inferioridade. No longo prazo, invejosos têm, sim, mais chance de ter sucesso -especialmente reprodutivo.

Homens e mulheres, diz Buss, sentem tipos diferentes de inveja. Isso porque tiveram que se adaptar a dificuldades diferentes na evolução.

Modos de macho e fêmea

Biologicamente, em princípio, homens podem tantos quantos conseguirem gerar. Atraem-se em geral por mulheres jovens com aparência fértil.

Já o instinto feminino investe mais em cada bebê. São pelo menos nove meses de gestação. Mulheres que se importavam com a capacidade dos seus companheiros de assegurar que isso tudo não seria desperdiçado tiveram mais sucesso reprodutivo que as outras.

Então, evolutivamente, faz sentido que as mulheres se sintam atraídas, entre outras coisas, por homens que apresentem segurança. Quando a espécie humana vivia de caça e de coleta, isso significava conseguir trazer quantidades grandes de proteína para os filhos. No mundo moderno, significa algum sucesso profissional.

Como a inveja é consequência direta da competição entre as pessoas, homens tendem a se incomodar mais com os seus colegas que ganham mais. As mulheres, com as suas amigas mais atraentes do que elas.

Isso tudo não significa, claro, que homens não sintam inveja de caras bonitos (ou mulheres de moças ricas) ou que homens não se atraiam por mulheres de sucesso (e muito menos que mulheres não gostem de homens bonitos). É só uma questão de intensidade.

A inveja tem outro componente importante. Ela frequentemente aparece associada a uma tentativa de minimizar o sucesso do invejado. A promoção recebida por alguém no trabalho não significa competência ("é um mero puxa-saco"). A vizinha não é bonita porque se cuida ("fez uma plástica").

O instinto humano é não se inferiorizar com relação aos outros -ninguém quer ser visto como a última opção, especialmente em termos sexuais. Quem não se armou contra isso, ao longo da evolução, não se reproduziu e sumiu do mapa.

Tentar rebaixar quem está por acima, então, é uma tentativa, talvez até desesperada, de não parecer menor do que eles.

As pessoas, então, geralmente não admitem que sentem inveja porque fazer isso seria uma forma de dizer aos outros "sim, estou abaixo no ranking social e sei disso".

"Gore Vidal [escritor americano] já dizia: ter sucesso não é o suficiente. Os outros precisam fracassar", escreve Buss.

Inveja de velho

Desde as diferenças entre a inveja masculina e a feminina, até o gosto por estar acima no ranking social (as pessoas preferem ganhar R$ 3.000 se todos ganharem R$ 2.000 do que ganhar R$ 5.000 se todos ganharem R$ 7.000, por exemplo), muitas hipóteses sobre a inveja foram confirmadas com voluntários em experiências realizadas na última década.

Algumas, entretanto, ainda estão em aberto. A mais instigante, levantada por Buss, relaciona-se com a impressão de que as pessoas ficam menos invejosas com a idade -a inveja seria mais comum na juventude. A explicação, diz ele, talvez não seja o amadurecimento.

Pode ser que, depois do pico reprodutivo, a idade faça com que ser a última opção em termos sexuais já não faça tanta diferença. Os outros são mais bonitos? Que sejam. Tanto faz. Os pesquisadores querem respaldar, em breve, essas ideias em experimentos.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Para que o amor dure


É POSSÍVEL PRETENDER que uma mulher e um homem jurem se amar para o resto de suas vidas? Difícil, mas é o que acontece milhares de vezes por dia, na maioria dos países, em cerimônias de casamento. É como um contrato em que regras são estabelecidas mas nem sempre cumpridas, mas há quem garanta que regras foram feitas para isso.

Mas essa, convenhamos, é muito radical. Seria um sonho amar e ser amada pela mesma pessoa até o fim dos dias, no lugar de passar a vida tentando, tentando, se decepcionando, sofrendo, fazendo sofrer. Seria maravilhoso que as pessoas se casassem e se amassem para sempre, mas não é sempre que isso acontece.

E quando não acontece, são meses, às vezes anos de sofrimento para um monte de gente: os próprios, os filhos dos próprios, os pais dos próprios, os amigos que falam e tomam partido, ficam amigos de um lado e rompem com o outro, fora a divisão dos bens, a pensão alimentícia etc.; uma desestruturação geral, um caos.

Mas já que é um contrato, porque não mudar as regras, com a concordância dos dois envolvidos?

Poderia ser assim: tudo mais ou menos igual, mas já determinando, antes, o que é de quem, em caso de separação. Quando isso é feito no tempo das rosas, entre beijos e carinhos, pode ser uma tarde bem divertida um dizendo "ah, mas se a gente se separar, o som é meu", enquanto o outro responde "se você fica com o som, então eu fico com a TV", e sobretudo quem fica no apartamento e quem sai.

Tudo escrito num bloquinho, assinado pelos dois, que dali iriam direto para a cama rindo e dizendo que nada daquilo aconteceria jamais, pois o amor deles seria eterno.

Nesse contrato haveria uma cláusula, para mim a principal, igualzinha a quando se aluga um apartamento: o tempo de duração da relação. Um ano seria um prazo ótimo: nem curto demais, nem longo demais. Quando o dia chegasse, estariam automaticamente descasados e separados, e caberia apenas uma pergunta, como no programa de Silvio Santos: vai continuar ou vai desistir? Depois da resposta, ou uma nova lua de mel, ou cabe ao que vai sair fazer as malas e desaparecer sem ter que discutir a relação; sem ter que discutir a relação, está claro?

Essa cláusula preservaria e muito as uniões, e os casamentos durariam bem mais. Por quê? Vejamos.
Se uma pessoa sabe que num dia determinado o contrato termina -e ela está feliz com sua vida-, faz o quê? Trata de cuidar muito bem do seu marido/mulher, de encher de carinhos, de fazer as vontades, de se comportar como o parceiro/a ideal.

Se fizer assim, dificilmente o outro/ outra vai deixar de amar, e a prorrogação do contrato por mais um ano será automática. No ano seguinte, a mesma coisa, os mesmos cuidados, os mesmos carinhos. Sinceramente: se você sabe que pode perder aquela pessoa numa data já determinada, não vai fazer todas as gracinhas para que isso não aconteça?

Mas se mesmo assim um se apaixonar por outra/o e ficar esperando ansiosamente pela data do fim do contrato para fazer as malas e se mandar, é porque não ia dar certo mesmo.

E nesse caso terá que pagar uma multa, exatamente como nos contratos de aluguel. Assim, com o dinheiro da multa, o que foi deixado poderá fazer uma viagem - a Foz do Iguaçu ou às ilhas gregas- e lá encontrar mais um verdadeiro amor de sua vida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ainda as prioridades públicas

Câmara de São Paulo corta verba para ações antienchente, mas não a de publicidade

A Câmara de São Paulo aprovou na terça-feira, em segundo turno, o Orçamento para 2010 com cortes nos recursos para combate às enchentes --como investimentos em áreas de risco e canalização de córregos--, mas manteve intacta a verba destinada à publicidade oficial.

A peça aprovada ontem, por 42 votos a 13, prevê receitas totais de R$ 27,9 bilhões, valor inferior ao apresentado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) --R$ 28,1 bilhões-- e ao aprovado em primeiro turno na semana passada (R$ 28,8 bilhões).

Entre os cortes feitos pelo relator Milton Leite (DEM) estão R$ 70 milhões para a canalização de córregos, R$ 1 milhão para áreas de risco e R$ 30 milhões para a coleta de lixo. Já a verba de publicidade, de R$ 126 milhões, foi preservada.

O corte nas verbas para ações antienchente ocorre num momento em que a cidade enfrenta, uma semana depois, os transtornos de um temporal ocorrido na terça-feira da semana passada. Ainda há ruas e casas alagadas em bairros do extremo leste de São Paulo.

Atendimento

A peça aprovada ontem reduziu, em relação à primeira proposta, R$ 15 milhões da verba destinada ao sistema da prefeitura encarregado do atendimento aos cidadãos. Hoje, a principal responsável pelo serviço é a Call Tecnologia, que está envolvida em escândalo no governo de José Roberto Arruda (DEM), no Distrito Federal.

O valor para o serviço caiu de R$ 45 milhões para R$ 30 milhões. A prefeitura já havia informado que a verba será usada para melhorar o sistema, mas não será necessariamente por meio de contratos com a Call.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Prioridades públicas

PREFEITURA NAO TEM PLANO CONTRA ENCHENTES

José Ernesto Credendio

Cidade de São Paulo não fez diagnóstico nem apresentou ações de prevenção como prevê lei federal que entrou em vigor há três anos

Município não tem projeto de drenagem e não mapeia áreas de risco desde 2003; neste ano, licitações só começaram em setembro

Passados três anos da entrada em vigor da lei que obriga os municípios a preparar planos de prevenção e combate a enchentes, com a previsão de obras necessárias a longo prazo, a Prefeitura de São Paulo não elaborou seu planejamento e realiza apenas ações pontuais nos locais mais críticos.

A lei federal 11.445, mais conhecida como marco regulatório do saneamento, prevê que as prefeituras façam um diagnóstico da situação, proponham soluções com outros órgãos -Estado e União- e ainda criem mecanismos para avaliar o resultado dos investimentos.

Cobranças

A falta do Plano Diretor de Drenagem para a cidade foi tema de seminário realizado em outubro pelo Instituto de Engenharia de São Paulo, do qual participou o secretário municipal de Infraestrutura e Obras, Marcelo Cardinale Branco.

O presidente do instituto, Aluizio de Barros Fagundes, faz uma dura cobrança de ações do poder público para amenizar os efeitos dos temporais. “É preciso pensar na água, no esgoto, na drenagem e no lixo como saneamento básico, é um conjunto. A obrigação [de gerenciar tudo] é do prefeito”, disse.

Neste ano, segundo a Secretaria de Obras, foram liberados R$ 180 milhões para projetos contra enchentes, mas grande parte das licitações só começou neste semestre. Desde setembro, a secretaria lançou ao menos 11 editais para contratar estudos, projetos e obras de ampliação de galerias, canalização de córregos, drenagem de ruas e construção de piscinões.

No primeiro semestre, não houve editais para obras importantes, mas em setembro começou a licitação para dois piscinões na área central -praça das Bandeiras e praça 14 Bis-, projeto herdado do governo Marta Suplicy (PT).


KASSAB SEPARA MAIS VERBA PARA PROPAGANDA

Na mesma semana em que a Câmara aprovou projeto que eleva o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para cerca de 1,7 milhão de imóveis da capital, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) aumentou em R$ 10 milhões a verba destinada à propaganda de seu governo.

O reforço foi feito nesta sexta-feira (4), por meio de remanejamento de verbas. O dinheiro extra para publicidade faz parte de um remanejamento maior, de R$ 17 milhões, que engloba itens de educação e operações urbanas.

A princípio, Kassab havia previsto para este ano um investimento de R$ 30,4 milhões para "publicações de interesse do município". Esse montante, porém, já foi ampliado pelo prefeito para R$ 76,3 milhões até o fim de outubro. Isso representa, no total, um crescimento de 142% na verba publicitária.


Negócio dos sonhos

TV aberta investe em programas assistencialistas
Rodrigo Russo

Mesmo sem renovar ideias ou formatos, os programas do fim de semana que apostam no assistencialismo --ou na solidariedade, como preferem se caracterizar-- estão se consolidando como um bom negócio para emissoras e anunciantes.

Atualmente, as três maiores emissoras de TV aberta do país --Globo, Record e SBT-- têm quadros desse gênero. "Caldeirão do Huck" (Globo), "Programa do Gugu" (Record) e "Domingo Legal" (SBT), com quadros que investem na mudança de casas e carros, se destacam neste cenário.

É quase uma sequência: como os programas de transformação têm bons índices de audiência, geralmente acima de dez pontos no Ibope, não faltam anunciantes e patrocinadores --ou parceiros, no linguajar das TVs. Com a boa audiência e bons patrocínios, justificam-se os investimentos das emissoras.

Atualmente, as três maiores emissoras de TV aberta do país --Globo, Record e SBT-- têm quadros desse gênero. "Caldeirão do Huck" (Globo), "Programa do Gugu" (Record) e "Domingo Legal" (SBT), com quadros que investem na mudança de casas e carros, se destacam neste cenário.

É quase uma sequência: como os programas de transformação têm bons índices de audiência, geralmente acima de dez pontos no Ibope, não faltam anunciantes e patrocinadores --ou parceiros, no linguajar das TVs. Com a boa audiência e bons patrocínios, justificam-se os investimentos das emissoras.

Aqui, aparece a primeira --e talvez principal-- diferença entre os quadros: o orçamento. Com estrutura mais modesta, o "Construindo um Sonho", apresentado por Celso Portiolli no SBT, tem nas parcerias com empresas o principal meio de financiar as reformas e garante média de oito pontos entre as 11h e 14h45 do domingo.

"Tem casa que sai de graça para nossa produção", conta Roberto Manzoni, o Magrão, diretor do "Domingo Legal". Estima-se que a reforma de uma casa ou apartamento não saia por menos de R$ 100 mil.

Para isso, usam das permutas: em troca da cessão de materiais, móveis e eletrodomésticos (às vezes também há algum suporte financeiro para mão de obra), o canal cita os fornecedores durante o quadro, além de incluí-los em uma extensa lista de agradecimentos.

Merchandising

Muitas vezes, as permutas evoluem para ações de merchandising, em que o anunciante também paga pela inserção de seu produto. É com base nesse modelo que funciona o "Lar Doce Lar", quadro apresentado por Luciano Huck em seu "Caldeirão" desde 2006. Neste ano, o programa tem média de 18 pontos no Ibope nacional, enquanto concorrentes de horário não chegam a dez.

Em breve conversa, o apresentador lembra de cabeça cinco parcerias, que vão de eletrodomésticos a móveis. Além disso, conta com a maior grife entre os concorrentes: o arquiteto Marcelo Rosenbaum, responsável por agregar conceitos funcionais às casas, geralmente entregues a classes mais baixas.

Com menor número de merchandisings, mas contando com maior orçamento da emissora, o "Programa do Gugu", que estreou no fim de agosto na Record e tem índices próximos de 12 pontos na audiência, com picos de 17, levou do SBT o formato que já usava, e trocou o nome para "Sonhar Mais um Sonho". Gugu também faz "De Volta pro Meu Aconchego", em que leva famílias carentes de volta para as cidades natais.

A diretora nacional de mídia da agência de publicidade F/Nazca, Lica Bueno, conta que esse tipo de quadro, visto com receio inicialmente por se concentrar em camadas populares, hoje tem grande aceitação no mercado. "A ação do patrocinador soa muito menos forçada do que em uma novela, já que há todo um contexto envolvido. Além disso, é sempre bom associar-se a melhoras significativas na imagem de uma casa."

"Quero mudar minha vida"

Mas por qual razão esses quadros cativam a audiência? Lica formula uma hipótese: "A frase 'quero mudar minha vida' tem grande penetração nas classes C e D, e esses programas são boa representação disso".
Ainda segundo ela, os programas são uma oportunidade de sonhar, de ter esperança de que a mudança aconteça também para o público --embora as chances sejam remotas.

"Nós devolvemos um pouco de vida e de dignidade para essas pessoas, especialmente para os mais velhos", diz Homero Salles, diretor de Gugu.

Para Luciano Huck, "o que menos importa é a reforma em si. Isso é uma ferramenta para contarmos boas histórias --o que todo mundo tem". Caso sejam dramáticas, melhor ainda --para o programa, os anunciantes e a audiência.


Gênero assistencialista comete crueldade, diz especialista

Apesar de se mostrarem ao público como atrações beneficentes, os quadros que envolvem transformações escondem a realidade da escolha dos personagens beneficiados, diz Laurindo Lalo Leal Filho, professor de comunicação da USP e ouvidor da TV Brasil.

Para ele, "há uma falsidade desses programas, que são cruéis na relação com o

público", pois as histórias têm que ter possibilidade de conquist

ar audiência, por meio de narrativa dramática e dramatúrgica.

"Esse é o verdadeiro critério de seleção", explica.

Roberto Manzoni, o Magrão, diretor do "Domingo Legal" (SBT), que promove o quadro "Construindo um Sonho", é o único envolvido nas produções a admitir que as escolhas são baseadas em dois critérios: devem ser boas para o programa, de forma a serem contadas na TV de forma atrativa e com mais emoção, e ao mesmo tempo atender com sucesso aos necessitados de uma mudança.

Este último critério, que sugere a meritocracia na seleção dos personagens e que é apontado como decisivo pelos outros dois grandes programas ("Caldeirão do Huck" e "Programa do Gugu"), também é questionado por Leal Filho.

"Tenho certeza de que a maior parte dos que se dispõem a escrever para esses quadros precisam, necessitam, de uma mudança. Mas, fora os escolhidos, todos os outros continuam a viver sem nenhuma atenção."

Ainda, Leal Filho destaca que, caso os programas realmente desejassem fazer caridade, deveriam ter um olhar mais amplo, dedicado a favorecer o maior número possível de candidatos _que não são poucos.

Em 2008, foram enviadas cerca de 300 mil cartas candidatando-se para receber a transformação de casas do Lar Doce Lar, apresentado por Luciano Huck. Desde 2006, foram feitas aproximadamente 40 edições desse quadro.

Assistencialismo "soft"

O professor da USP ressalta que o assistencialismo sempre fez parte da TV brasileira (leia quadro abaixo), mas que a diferença dos atuais quadros é uma certa sofisticação. "Hoje, não se dá mais uma cadeira de rodas, não se mostra a desgraça crua; há uma nova roupagem, com base na TV americana."

Com um relativo aumento do poder aquisitivo do telespectador, notado pelo acesso de classes mais baixas a alguns bens de consumo, houve a necessidade de adequar o conteúdo ao público da TV, diz Leal Filho.

Homero Salles, diretor do "Programa do Gugu", entende que hoje o sonho do carro está banalizado, mas a casa própria segue como o desejo de todas as classes sociais, e por isso o maior impacto na audiência.

Para ele, o programa não é assistencialista, mas solidário. Luciano Huck também rejeita o rótulo: "Tenho absoluta convicção de que não é assistencialismo. Nunca tripudiei do sofrimento de ninguém".

Leal Filho especula três motivos que prendem a atenção do telespectador: o voyeurismo, "uma vida cotidiana dramática e bem editada", a tendência de acompanhar dramas pessoais, em uma espécie de catarse, e, por fim, a falta de alternativas.






sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Filho único

Em seu novo livro, o psicanalista Francisco Daudt defende a criação dos filhos de acordo com as particularidades de cada um deles

Após um intervalo, Francisco Daudt, 61, autor de "O Amor Companheiro: a Amizade Dentro e Fora do Casamento" (ed. Sextante) e de outras quatro obras, volta novamente a atenção para crianças e jovens no recém-lançado "Onde Foi que Eu Acertei - O que Costuma Funcionar na Criação dos Filhos" (R$ 38, 240 pág., Casa da Palavra).

O psicanalista carioca aborda temas como a importância de criar filhos conectados consigo mesmos, capazes de respeitar seus desejos e de não depender demais da companhia dos outros, entremeados por dicas sobre aspectos práticos da vida cotidiana, como a importância da tabuada.

O sr. cita características que gostaria de ver em seus filhos, como a liberdade de pensamento, o senso de justiça e a independência. Qual considera mais importante?

FRANCISCO DAUDT - Ter capacidade de se formar como indivíduo e de ter critério. Foi por conta dessas capacidades que recebi o melhor elogio que um pai pode receber. Patrícia falava sobre colegas que faziam parte de tribos, que se drogavam, se tatuavam, quando disse: "Pai, você criou a gente para ter critério próprio e, sendo assim, a gente acha umas coisas interessantes em uma tribo e outras não interessantes, então nunca somos objeto de posse de uma tribo. A gente se conecta com pessoas escolhidas".


No trecho do livro sobre a construção da autoestima, o sr. passa a impressão de que isso é algo simples. É mesmo?

DAUDT - Não é. A autoestima vem de fora. Você não pode pegar um desenho pouco caprichado e dizer que está lindo. Por causa da autoestima, precisa ser honesto sem ser ofensivo. Se disser que está lindo, a criança, que tem uma percepção do que é genuíno, vai ficar desconfiada. Ela vai tomar porrada fora de casa e vai achar que só pode viver em casa, onde todos acham lindo o que ela faz. Outra coisa é o reconhecimento. A criança tira nota dez e o pai diz que ela não faz nada mais que a obrigação. Não pode só apontar defeito, sem reconhecer qualidade.


Outro ponto que o sr. frisa no livro é a construção da vontade. Por que ela é necessária?

DAUDT - No meu tempo de criança, para conseguir alguma coisa do meu pai era um drama. Eu pedia R$ 10 e ele fazia cara de quem tinha levado uma facada no peito. Isso estimulou nossa independência financeira. Hoje, há uns pais doidivanas que, antes de a criança querer um computador, já compram o computador, o laptop, o iPod. A criança não quis nada nem pediu nada e não dá um caracol por aquelas coisas.
Fica uma criança sem vontade, sem garra, sem ambição, porque tudo cai do céu. Chega na adolescência, imagina se vai ter projeto de médio prazo, se vai poupar para comprar algo que ela ambiciona... Não. Ela está prisioneira do imediatismo e isso é um estímulo para o consumo de drogas.


O sr. dedica um bom espaço a temas da vida prática, como a necessidade do celular, as vantagens da tabuada etc. Por que quis abordar esses temas? Os pais estão perdidos na criação dos filhos?

DAUDT - Quis chamar a atenção para a vida real. Na geração dos meus pais, as casas não tinham piscina, os móveis eram pesados e tinha grade na janela. Quando me dei conta de que a possibilidade de uma criança morrer numa piscina é cem vezes maior do que por arma, fiquei horrorizado. Estamos progredindo em segurança e a pior coisa é que criança morre porque é frágil, então a prioridade é mantê-la viva, introjetar nelas o conceito de segurança.


Existe uma idade, na infância, a partir da qual é difícil "reverter" uma criação malfeita?

DAUDT - Cinquenta por cento do que somos nasce conosco. E 50% vem da tal criação única, que consiste em ter atenção especial para o filho entender o que ele é e se guiar por isso.


O sr. não atende adolescentes. Eles o aborrecem?

DAUDT
- Pela falta de capacidade de verbalização. Um adolescente que a mãe empurrou para a terapia é um "aborrecente", mas os meus não, porque tive consideração por eles sempre. Se me viram usar a autoridade do saber antes da da força, não têm por que serem rebeldes.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A função cultural das privadas


"Em tempos difíceis, em algumas pessoas crescem asas; outras compram muletas."

Quando vivi nos EUA, me informaram de uma revista científica que só publicava palpites não comprovados ainda por meio de pesquisas. A diferença entre artigos já provados e palpites é simples. Artigos já provados enunciam conclusões, chegadas, descansos. Palpites anunciam partidas, caminhadas, canseira...

Sugestões de adesivos para colocar em carros: "Você tem direitos; procure sempre um advogado"; "Você tem avessos; procure sempre um psicanalista...";

"Sem advogado não se faz justiça..."; "Os advogados, se quiserem, podem contribuir para a realização da justiça...".

Jay W. Forrester, professor de administração do MIT, enunciou a seguinte lei das organizações: "Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas". Essa lei foi enunciada há 2.000 anos de forma mais simples e poética, que todos podem compreender: "Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. Porque o remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes" (Jesus).

O livro sagrado do taoísmo, o "Tao-Te-Ching", diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10 mil coisas que demandam ação. Todas não essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10 mil perturbações. Sabedoria é deixar o sufoco das 10 mil coisas não essenciais e focalizar os olhos na única coisa que é essencial.

"Paraíso" -jardim- é uma palavra que deriva do grego "paradeisos", que, por sua vez, vem do antigo persa "pairidaeza", que quer dizer "espaço fechado". Jardim é um espaço fechado. Por que fechado? Para ser protegido. Para que seja nosso.

Fora dos muros que fecham o jardim está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e beleza que mora nos seres humanos.

Política é a arte de criar esse espaço.

Política é a arte da jardinagem aplicada ao espaço público. Deixando de lado as 10 mil coisas a serem feitas, a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a convivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório. Não ficou claro? Explico.

Mais importante que cem fechaduras é a única chave que as abre...

Já pensaram que, mais importante que as 10 mil coisas administrativas que podem ser feitas, a tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar? O Diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema: "Ordena que essas pedras se transformem em pães...". Jesus respondeu que o que realmente importava eram as palavras...

"Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade." (Raul Seixas) É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas para se tornar realidade. É o essencial.

Escrevi, faz tempo, uma crônica com o título "A função cultural das privadas". Conversando sobre o assunto com uma amiga, tivemos uma ideia luminosa: e se as empresas passarem a colocar, na porta diante dos tronos, trechos literários curtos, para serem lidos pelos intelectuais assentados? Muitas experiências de iluminação científica surgiram em momentos de solidão meditativa.


RUBEM ALVES

domingo, 6 de dezembro de 2009

A vida é contagiosa


Para cientistas,
ela se espalha de maneira contagiosa;

o mesmo vale para felicidade,

solidão e
até hábitos sexuais



É cruel: se você quer emagrecer, talvez o melhor a fazer seja dizer aos seus amigos gordos que fiquem longe. Porque um único grande amigo gordo aumenta em 57% as suas chances de engordar, segundo os cálculos de cientistas sociais americanos. A obesidade, dizem, espalha-se de maneira tão contagiosa quanto um vírus.

Não só ela, na verdade. O mesmo acontece com a felicidade, a agressividade, o hábito de fumar, a solidão.

Alguns exemplos podem ser até chocantes. Quando surge entre uns poucos adolescentes populares a noção de que o sexo oral é socialmente aceitável, é provável que o hábito se espalhe rápido entre os outros, dizem Nicholas Christakis e James Fowler, cientistas sociais de Harvard e da Universidade da Califórnia, respectivamente.

Justamente pelo fato de as pessoas serem influenciáveis, suas decisões não são sempre racionais. Comportamentos são adotados só porque todo mundo os adota também. Os economistas erraram, diz a dupla, que está lançando um livro sobre o assunto no Brasil -"O Poder das Conexões", pela editora Campus-Elsevier.


Você engorda, eu engordo

"Os economistas acham que as pessoas têm desejos e então tentam maximizá-los. Mas de onde surgem os desejos? Por que você quer uma BMW e não uma Mercedes? Eles vêm, com frequência, de outras pessoas. Somos influenciáveis. Tentar entender grupos entendendo apenas os indivíduos é estúpido", diz Christakis.

Os cientistas já suspeitavam há muito tempo que as conexões sociais fossem poderosas. É óbvio que humanos são, de alguma maneira, influenciados por quem está ao redor. Mas não se sabia que era tanto -e nunca foi possível calcular algo assim. Como quantificar?

O ideal seria acompanhar um grupo grande de pessoas que se relacionassem ao longo de décadas. Aí, observar como tendências surgiam e se espalhavam dentro dele.

Christakis achou algo assim em 2002, em um cidade americana cheia de brasileiros -gente de Governador Valadares (MG), em especial.

Trata-se de Framingham, em Massachusetts, hoje com pouco mais de 60 mil habitantes. Desde 1948 pesquisadores preenchem, ano após ano, um monte de formulários sobre como anda a vida de boa parte deles. Queriam saber desde peso até hábitos alimentares. Mais de 15 mil pessoas de três gerações já participaram.

A ideia, inicialmente, era estudar quais hábitos propiciavam doenças cardíacas. Mas os pesquisadores tinham medo de que as pessoas mudassem de endereço, fazendo com que não pudessem mais ser encontradas. Por isso, pediam a todos que fornecessem os nomes dos seus amigos mais próximos, que poderiam dizer onde é que eles tinham se metido.

O que Christakis percebeu, portanto, é que, mesmo que não tenha sido projetado para isso, o estudo era um banco de dados perfeito para saber como certas características se espalhavam entre as pessoas ao longo do tempo.

Na análise, descobriram que um amigo obeso aumenta em 57% as suas chances de também ficar gordo. Mesmo amigos magros com conhecidos gordos influenciam seu peso.

Como em 1948, quando os dados começam, existiam bem menos gordos nos EUA, é possível perceber a epidemia da obesidade surgindo. Fica nítido, dizem os cientistas, que as pessoas engordam em grupos. Um piscar de olhos e todo um círculo social fica pesado.

Isso acontece porque são as pessoas mais próximas a você que criam a sua noção de normal e de bizarro.

Ou seja, amigos de gordos não ficam gordos porque comem junto com eles. Ganham peso porque, influenciados, aos poucos passam a parar de ver problemas em se alimentar mal nas suas próprias casas.

O contrário também é válido: vire uma modelo, mude de amizades e entre em um mundo repleto de magreza. Qualquer dobra mínima na barriga vai parecer uma questão de vida ou morte -você fará um enorme esforço para acabar com ela.


Tristeza não tem fim?

Aos poucos, Christakis e Fowler foram percebendo que as suas conclusões não valiam apenas para a obesidade. A felicidade, por exemplo, também foi estudado pela dupla. Cada amigo feliz aumentava em 15% a chance de que alguém também se declarasse feliz.

A infelicidade, claro, também é contagiosa. Tenha, então, uma meia dúzia de amigos tristes e será improvável que você consiga sorrir muito.

O ambiente ao redor, então, é fundamental para moldar o que alguém é. Ao ser questionado se isso faz com que os genes não sejam tão importantes, Christakis diz que não.

"Pode haver uma base genética mesmo para a quantidade de amigos que você tem ou para o quanto você está no centro da sua rede social. Algumas pessoas nascem tímidas e outras muito sociáveis, por exemplo."


Ricardo Mioto

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Olímpiadas no Rio


UMA GRANDE HIPOCRISIA

Alberto Murray Neto


A DECISÃO do Comitê Olímpico Internacional foi indigna. Mais do que isso, foi hipócrita. Tentaram fazer história à custa do desespero dos pobres. Não acredito que haja no COI alguém que ignore os gravíssimos problemas sociais do Brasil.

Se essa pessoa existe, não merece estar lá. Ou melhor, merece, sim.

Quem achou que fez história ao “dar os Jogos à América do Sul, em razão de seu caráter universal”, não pensou no movimento olímpico. Pensou em si mesmo e nos próprios interesses. Daí a hipocrisia.


O Brasil e o Rio são carentes de tudo. Não há escolas, hospitais, moradia, transporte público, alimentação para os pobres, luz elétrica, saneamento básico, esporte etc. As pessoas continuam morrendo de sede, de frio, de bala perdida etc.

O Rio é a porta de entrada para o Brasil, o que nos dá visibilidade no exterior. A cidade tem tido a má sorte de, há anos, ser maltratada por políticos incompetentes e mal-intencionados.

Se alguém acha que daqui a sete anos o Rio estará livre dos traficantes de droga e dos tiroteios, que o trânsito será fantástico, que haverá hospitais de qualidade, escolas públicas de excelente nível para todas as crianças, praças esportivas populares espalhadas pela cidade, pessoas morando condignamente, só para citar alguns exemplos, escolha uma bela praia e espere deitado. Para não se cansar.

Nada, rigorosamente nada vai mudar. A baia da Guanabara, por exemplo, vai permanecer um dos locais mais poluídos do mundo. Bela, mas de cheiro insuportável. Uma coisa, na cabeça dessa gente, é certa: o povo, pobre povo do Rio de Janeiro, que se lixe!

Tudo isso é assunto que deverá ser acompanhado de perto. Sei que gente boa do Rio criou algumas ONGs para fiscalizar o uso do dinheiro público.

Que elas trabalhem muito e façam o papel que os organizadores não terão coragem de fazer.
Que essas ONGs escancarem os números, as licitações públicas e quem estará por trás de cada empresa vencedora -isso quando houver a tal licitação. Que o TCU e o Ministério Público não se apequenem e cumpram o seu papel constitucional.

População carioca, assim que a festança acabar, cobre, fique de olho. Não se deixe enganar. Quero ver a patota olímpica fazer em sete anos o que já deveria ter sido feito há mais de 20.
Ainda assim, acho que os atuais administradores do esporte olímpico devem sair.

A renovação, salutar em quaisquer circunstâncias, deve ser feita com muito mais razão, até para dar maior transparência ao que ocorrerá à partir de agora. Se permanecerem os mesmos, o final da história já se sabe. Basta ver o Pan e multiplicar por mil o tamanho do escândalo.

Que venha a lei que limita as reeleições indefinidas, já valendo para os atuais mandatários. Já que o COI cometeu essa ignomínia, que se ponha gente do bem para administrá-la.

Nada do que foi escrito e falado sobre a candidatura por quem a ela se opôs é inútil. Tudo, agora com muito mais razão, deverá ser aplicado e observado. A doutrina olímpica da honestidade vai sempre prevalecer.

Venceram, pela coragem do que disseram, tantos e tantos nomes da imprensa, do esporte e da sociedade civil criticando essa manobra olímpica. Que todos continuem seu belo trabalho de fiscalização, agora redobrado.

As obras olímpicas serão muito mais caras, haverá denúncias, escândalos, atrasos nas construções e, acima de tudo, não vão entregar o que prometeram.

Aqueles que gravitam no entorno do movimento olímpico brasileiro vão ficar ouriçados. Viva a agência de turismo! Bravo para a corretora de seguros! Estupendo para a empresa que comercializa os ingressos! E a empresa de marketing esportivo, que vibre muito!

As construtoras vão dividir a fatia do bolo? Vai ter construtora falida reerguendo-se à custa desse projeto megalômano? Haverá licitações públicas? Os fornecedores de serviços terão que contratar “consultorias” de terceiros estranhos ao negócio?

Disseram aos brasileiros e aos cariocas que os Jogos Olímpicos seriam a solução dos seus problemas. “Olimpiator Tabajara”, seus problemas acabaram. O Nuzman agora vai virar o “Seu Creysson”.


ALTO RENDIMETNO

Renata Lo Prete


Apontado pelo TCU como um dos responsáveis por superfaturamentos no Pan-2007, cujos processos ainda tramitam no tribunal, o funcionário do Ministério do Esporte Ricardo Leyser Gonçalves cuidará agora das obras do Rio-2016.

Leyser é hoje um dos homens fortes na estrutura do PC do B. Chegou ao poder público na administração de Marta Suplicy (PT) em São Paulo, como chefe de gabinete da então secretária de Esportes, Nádia Campeão. Na época, coordenou reforma no autódromo de Interlagos para o GP de F1.


Instalado na Esplanada, Leyser continuou a gerenciar orçamentos e contratos com empreiteiras. A preparação para a Olimpíada envolverá investimentos da ordem de R$ 26 bilhões.

Contas 1. De janeiro a agosto deste ano, Leyser usou R$ 230 mil em diárias de viagens -há casos de viagens que ultrapassam R$ 80 mil.

Contas 2. O TCU também investiga contratos do Ministério do Esporte firmados sem licitação. Um deles é com a FIA (Fundação Instituto de Administração), que elabora estudos de impacto econômico. Entre 2008 e 2009, a entidade faturou R$

sábado, 28 de novembro de 2009

Adultos infantilizados

A infantilização do consumidor é peça chave do espírito do capitalismo atual


DURANTE O feriado, nos cinemas, só dava "Lua Nova", de Chris Weitz, "2012", de Roland Emmerich, e "Os Fantasmas de Scrooge", de Robert Zemeckis. Claro, havia outros filmes, mas meio que perdidos na programação.

Imaginemos que você preferisse ler um romance e consultasse a lista dos mais vendidos. Você encontraria cinco títulos de Stephenie Meyer (a autora da saga de vampiros, cujo segundo volume inspira o filme "Lua Nova"), dois volumes dos "Diários do Vampiro", de L. J. Smith, e, no fim, "O Pequeno Príncipe".

Ora, assisti a "Os Fantasmas de Scrooge" (não perderia um filme de Zemeckis, o diretor de "Forrest Gump") e achei excelente; vi de óculos, em 3D, deleitando-me com a atmosfera encantada: como disse uma menina, nevava na sala de cinema. Não vi "Lua Nova", mas gosto da saga de Meyer, sobre a qual escrevi nesta coluna, assim como escrevi sobre o primeiro filme da série, "Crepúsculo". Além disso, aposto que me divertiria com a fantasia catastrófica de "2012"; Emmerich já me divertiu com "Independence Day". Enfim, tenho uma lembrança comovida de "O Pequeno Príncipe".

Então, por que me queixaria dessa preponderância de filmes e livros obviamente infantojuvenis? Não me queixo, apenas constato: nas salas de cinema ou nas livrarias, aparentemente, os adultos devem ser uma pequena minoria, com a exceção, é claro, dos que acompanham suas crianças ou as presenteiam com livros. Estou sendo irônico: é claro que os grandes consumidores de filmes e livros infantojuvenis só podem ser os adultos.

Domingo, um amigo editor me explicava, justamente, que o filé mignon atual são os "crossovers", ou seja, as obras que "atravessam", que seduzem tanto as crianças quanto os adultos. O best-seller e o blockbuster ideais são histórias supostamente para crianças e adolescentes, mas capazes de conquistar os leitores e os espectadores adultos.

Se consultarmos a lista dos livros mais vendidos de não ficção, a conclusão é a mesma. Como assim? Os ensaios não são o domínio reservado e sisudo dos adultos? Artifício: o sucesso dos livros de autoajuda forçou os jornais a separá-los dos de não ficção, mas, de fato, os mais vendidos de não ficção são os livros de autoajuda. Ora, o texto de autoajuda se relaciona com o leitor como com alguém que precisa e prefere ser guiado, orientado, ajudado a pensar, decidir e agir, ou seja, relaciona-se com o leitor como com uma criança.

Pois bem, Benjamin Barber, no seu novo livro, "Consumido - Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos" (Record), apresenta a infantilização do consumidor não como um acidente cultural momentâneo, mas como a peça chave do espírito do capitalismo contemporâneo.

Barber é convincente e divertido: chegaram os "kidadults", os "criançultos". O drama do dia não é que as crianças sejam alvo do mercado, mas que o mercado esteja transformando os adultos em crianças.

Por que o mercado prefere lidar com "criançultos"? E o que nos predispõe a sermos infantilizados? Uma breve hipótese. Houve, sobretudo a partir da segunda metade do século 20, uma explosão de um tipo especial de amor dos pais pelos filhos, um amor feito de esperanças e expectativas monstruosas (as crianças serão o que quisemos e não conseguimos ser, nada lhes faltará). Esse tipo de amor parental cria consumidores ideais: por exemplo, indivíduos com pouquíssima tolerância à frustração (e alergia à própria ideia de que algo seja difícil ou, pior, impossível) e com uma imperiosa necessidade de satisfação imediata (e alergia a tudo o que posterga: preparação, estudo, reflexão, complexidade, poupança).

Alguém dirá: e daí, qual é o problema? Exemplo. João quer ser rapper na África do Sul e gasta, impulsivamente, o décimo terceiro da mãe na roupa certa para se parecer com seus ídolos. Para ser rapper na África do Sul, talvez fosse mais urgente que ele estudasse inglês seriamente. Mas essa observação poderia entristecer João. Melhor deixá-lo sonhar e confundir sua mascarada com o começo da realização de seu desejo; afinal, ele é feliz assim, não é? Pois é, suposição errada: quem cresce sem nunca se deparar com o impossível ou mesmo com o difícil, acaba, mais cedo mais tarde, vivendo no desespero. Por quê? Simples (como um filme para crianças): ele só consegue atribuir seus fracassos ao que lhe parece ser sua própria impotência.

Contardo Calligaris



2012 Retardados

O filme "2012", de Roland Emmerich, é um lixo da geração Obama.


Filmes-catástrofe são fracos, servem para tardes chuvosas de domingo, recheados com cama, chuva e preguiça, ao lado de alguém com quem você gosta de ficar na cama abraçado. Além, é claro, do fato de que o ano "fatídico" 2012 é uma maldição do povo maia, essa "grande civilização" que fazia sacrifícios humanos.

Além dos clichês mais banais de filmes-catástrofe (cientistas bonzinhos, autoridades malvadas, presidentes americanos solidários, famílias despedaçadas que se reúnem em meio ao caos, vinganças da deusa natureza contra o dinheiro -aquele mesmo que todo mundo quer no bolso), "2012" acrescenta a palhaçada do politicamente correto. Isso sim é o fim do mundo.

Leitores me perguntam por que essa palhaçada me irrita tanto. Respondo: porque é coisa de retardado.

Nós não vamos morrer todos afogados em grandes ondas do mar, nem em labaredas vulcânicas, nem com a gripe da porca (H1N1). Nosso espírito sim vai sufocar sob a bota do fascismo retardado do politicamente correto.

Sempre temo que, sem Clint Eastwood, o cinema dos Estados Unidos afunde na "catatonia do bem" retardado.

Como essa "catatonia do bem" piora o já terrível "2012" (cheio de interpretações sofríveis, salvo o "profeta" Woody Harrelson, roteiro sem pé nem cabeça, soluções ridículas para os personagens)?

Antes de tudo, vale salientar que a temática apocalíptica tem seu peso no imaginário. A ideia do fim do mundo espreme os seres humanos contra a força de questões essenciais como "o que fizemos com nossas vidas?", "como chegamos a essa situação?", "como perdemos tanto tempo com bobagens?".

É aí que o retardamento mental do politicamente correto estraga tudo: ele responde as questões de uma forma mais infantil do que cartinhas de crianças para o Papai Noel. E a força do drama humano se dissolve no ácido da estupidez.

É claro que o cientista bonzinho é um anjo negro. Não o anjo negro do Nelson Rodrigues, que tem as vísceras de quem de fato sofre e de quem padece da maldição de ser homem, mas o anjo negro da geração Obama, cujos intestinos digerem não o bolo alimentar, mas as flores e as virtudes santas.

Ao contrário dos cientistas reais que correm atrás de dinheiro para pagar suas pesquisas e fazem qualquer negócio pra consegui-lo (com razão), esse se preocupa apenas com os pobres, claro, apenas os pobres dos países do G8.

O presidente, outro anjo negro, morre procurando o pai perdido de uma criancinha chorona. Sua filha (diga-se de passagem, uma deusa africana), só se preocupa com a salvação da arte universal.

A namoradinha do magnata russo canalha, que o trai com seu piloto particular (mas tudo bem...), em meio à destruição do mundo, confessa a outra mulher santinha: "Foi meu namorado quem me obrigou a pôr silicone, eu não queria". Mentira: qualquer pessoa não retardada sabe que as mulheres colocam silicone para que as outras invejem seus seios e para seduzir os homens, e não porque seus namorados as obrigam.

Evidentemente que os namorados usufruem, graças a Deus, e elas ficam mais bonitas e felizes.

O único "bad guy" (bandido) é um gordo branco preocupado com dinheiro, como todos nós. Mas claro que, no novo mundo dos retardados do bem, ninguém quer dinheiro, por isso a pérola que o anjo negro da ciência do bem diz: "Não devemos começar um mundo novo assim".

O mundo acaba. Os continentes afundam, menos a África, que, em vez de afundar, se ergue. Ora bolas, a África é o berço da humanidade, até faz sentido. Mas o mais importante é que, na geopolítica dos retardados, a África é o continente onde todo mundo é legal e vítima dos malvados brancos.

E aí vem o pior. Imagine um "loser" (fracassado), um escritor falido que ganha a vida sendo motorista de limusine. Agora imagine que ele ainda ama sua ex-esposa (a outra mulher santinha que citei acima). Imagine que essa ex-esposa o trocou por um médico bem-sucedido! Agora adicione o fato de que seu filho o despreza e adora o novo marido médico bem-sucedido da sua mãe. Depois imagine que, em meio ao fim do mundo, esse filho pentelho diz para o pai "loser": "Você deveria dar uma chance ao Gordon [nome do marido médico de sua mãe], ele é bem legal". E aí o infeliz marido trocado responde: "Eu vou tentar, meu filho".

No dia que um homem, nessa situação, concordar com um papo furado desse, de um filho pentelho, aí, sim, o mundo acabou.

Luiz Felipe Pondé

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ato médico


"Ato médico" cria polêmica entre profissionais da saúde

CLÁUDIA COLLUCCI
MÁRCIO PINHO

Médicos e outras categorias da área da saúde vêm travando uma queda-de-braço desde o último dia 21 de outubro, quando a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei conhecido por "ato médico" e que agora tramita no Senado.

Pelo projeto, apenas médicos estão autorizados a diagnosticar doenças e prescrever tratamentos. As outras 13 categorias da área da saúde, não.

Fisioterapeutas, biomédicos, enfermeiros e psicólogos, entre outros, afirmam que perderão sua autonomia de atuação caso o projeto seja aprovado e sancionado pelo presidente Lula.

A versão é rebatida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina). O órgão alega que a lei preencherá uma lacuna ao regulamentar o exercício da medicina, definindo os atos privativos dos médicos e resguardando as competências específicas das 13 profissões.

No entanto, para Gil Almeida, presidente do Conselho de Fisioterapia do Estado de São Paulo e integrante do movimento "Ato Médico Não", esse "resguardo" é vago e vai gerar discussão na Justiça.

Ele afirma que a lei proposta engessará o desenvolvimento das profissões e poderá dificultar o acesso à saúde caso seja instituída uma triagem médica.

Pesquisadores da área da saúde pública entendem que é legítimo o projeto definir as competências exclusivas dos médicos, mas veem corporativismo. "Para os idosos, os doentes crônicos, é impossível a gente pensar em cuidado integral sem a colaboração de uma equipe multidisciplinar", diz Lígia Bahia, professora de saúde pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na avaliação de Luís Eugênio Fernandes de Souza, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, as disputas são legítimas, mas o que está em jogo é uma reserva de mercado. Ele diz que não é interesse da sociedade nem viável economicamente a definição estrita de atribuições para cada profissão.

"Temos uma série de programas de saúde pública, como o da hanseníase, para os quais existem protocolos bem definidos em que outros profissionais da saúde podem fazer, inclusive, a prescrição de medicamentos. Se o projeto proíbe isso, vai criar um obstáculo. E os pacientes de cidades que não têm médico? Deixarão de ser atendidos?", questiona.

Souza lembra que há uma má distribuição de médicos no país. "No interior da Bahia, tem prefeitura que precisa de médico, oferece salário de R$ 17 mil e não encontra profissional."

Na opinião do desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Erickson Gavazza Marques, a prioridade deve ser sempre o atendimento à pessoa. "Nosso objetivo não é ser guardião de profissão nenhuma. Se o médico não é capaz de prestar determinado serviço, não há razão para que outros profissionais não possam prestar a assistência desde que isso esteja bem regulamentado."


Falsa polêmica

Segundo o presidente do CFM, Roberto d'Ávila, "no mundo todo", o que caracteriza a profissão médica é o diagnóstico e o tratamento de doenças. "É só isso que queremos garantir. Está no senso comum, na história da medicina. O resto é falsa polêmica. Não há nada de corporativismo."

Ele diz que em relação aos programas de saúde que envolvam doenças crônicas -em que enfermeiros prescrevem remédios, por exemplo-, nada vai mudar. "O paciente só precisa fazer o diagnóstico e receber a primeira receita do médico."

Ávila afirma que há gestores públicos que vêm delegando competências médicas a outros profissionais para baratear o custo da saúde. "Há equipes de saúde sem médicos, onde enfermeiros e outros profissionais estão fazendo diagnósticos, prescrevendo. Isso é inaceitável. Lutamos por equipes completas, multidisciplinares, onde cada um tenha sua função específica", diz ele.


Psicóloga diz que "ato médico" é retrocesso

O projeto de lei conhecido por "ato médico" representa um retrocesso pois vai contra o princípio da integralidade das diferentes profissões da área da saúde, segundo a diretora-secretária do Conselho Federal de Psicologia, Clara Goldman Ribemboim.

Folha - Como vê o projeto?

Clara Ribemboim - Ele limita a autonomia das profissões e as transforma em ilhas. Preconiza que o diagnóstico e a prescrição terapêutica são prerrogativas exclusivas do médico. É um retrocesso e coloca em risco o cuidado integral à saúde preconizado pela Constituição federal para o SUS.

Folha - Há uma ideia de que a medicina é superior?

Clara - Existe uma visão de supremacia do saber médico em relação às outras. Porém, cada profissão traz sua colaboração na promoção da saúde, e o médico sozinho não domina todo o conhecimento.

Folha - Os médicos poderiam exercer funções características das outras profissões?

Clara - O que está em jogo não é o fato de os médicos exercerem as outras profissões. O que esse projeto visa é o monopólio do encaminhamento e da chefia dos serviços. Vai atravancar o processo de atendimento e teremos uma falência do SUS.

Folha - E quanto à chefia dos serviços apenas por médicos?

Clara - Os serviços médicos não são serviços onde só o médico atua. Temos exemplos na atenção básica de serviços multiprofissionais chefiados por diferentes profissionais.



Para médico, lei de saúde protegerá a sociedade

Para o vice presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Carlos Alberto Fernandes Ramos, a regulação de atividades relacionadas à saúde é positiva para a população pois irá garantir que, quando o assunto for uma doença, o atendimento seja feito por um profissional que estudou a fundo esse tema: o médico.

Folha - Por que o projeto é necessário?

Carlos Alberto Ramos - São 14 as profissões de saúde e só uma não está regulamentada: a medicina. Esse projeto vai dizer as competências do médico, as exclusivas e as que pode fazer como os outros.

Folha - Que benefício traz?

Ramos - Isso tem que ser feito para proteger a sociedade de eventuais inescrupulosos que realizem atos específicos da medicina. Ou ainda porque o médico estudou de forma extensa e mais aprofundada as doenças, seus efeitos, tratamentos, interações medicamentosas etc.

Folha - As outras categorias são marginalizadas?

Ramos - O projeto não as torna subalternas. Elas deverão apenas se ater aos limites citados por suas próprias leis. O médico não sabe fazer trabalhos de outras áreas e não vamos interferir nisso.

Folha - Essas leis são antigas, genéricas?

Ramos - Às categorias compete atualizá-las.

Folha - E quanto à chefia de serviços médicos?

Ramos - Estamos falando de serviço médico, não de saúde. Um médico na chefia resguarda o cumprimento do Código de Ética.




Médicos não criaram todas essas restrições
HÉLIO SCHWARTSMAN

É verdade que, em relação ao projeto original, de 2002, a atual proposta de regulamentação do ato médico é quase republicana: psicólogos, dentistas, fonoaudiólogos etc. não estão mais impedidos de fazer os diagnósticos necessários à sua profissão. Não obstante esse significativo avanço, o PL nº 7.703/06 permanece escandalosamente corporativista.
Apenas a ânsia por tentar estabelecer a maior reserva de mercado possível explica a existência de dispositivos que tornam a colocação de piercings e a aplicação de tatuagens atos privativos de médicos.
Foram com tanta sede ao pote que produziram uma piada involuntária, ao tornar o sexo uma zona restrita: segundo o art. 4º, pár. 4º, III, "a invasão dos orifícios naturais do corpo" é prática exclusiva da classe.
Na mesma linha de irrazoabilidade vai o art. 5, que proíbe não médicos de chefiar serviços médicos ou de lecionar disciplinas médicas. Dependendo de como a norma for interpretada, inviabiliza-se a função de administrador hospitalar.
Diga-se em favor dos médicos que não foram eles que criaram todas essas restrições. Eles só reproduziram dispositivos constantes das regulamentações profissionais das categorias que agora se queixam do corporativismo médico.
O problema, no fundo, são as raízes fascistas que permeiam a sociedade brasileira. As pessoas não se veem como cidadãs de uma República, mas como representantes de um segmento social que seria detentor de direitos naturais. O que se busca é inscrever em lei as reivindicações decorrentes desses "direitos" e esperar que o Estado as implemente. Viramos o país das corporações.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As drogas e o crime organizado

Klaus von Lampe: uma medida de pó

Euclides Santos Mendes, do jornal Folha de S.Paulo

O crime organizado é um “governo do submundo”, defende o pesquisador alemão Klaus von Lampe. Ele é autor do livro “Crime Organizado” (publicado na Alemanha em 1999).

Professor de justiça criminal na Universidade da Cidade de Nova York (EUA) e um nomes mais respeitados em sua área, Von Lampe estuda a formação e a atuação do crime organizado, sobretudo na Europa. Em entrevista à Folha, ele diz que a violência desencadeada pelo crime é parte de um fenômeno que perpassa alianças, disputas e interesses entre grupos criminosos e também parcelas da elite social.

“Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais”, afirma. Reduzir o poder do crime organizado -que chegou a derrubar um helicóptero da polícia, no Rio Janeiro – segundo Von Lampe, depende de ações que partam do Estado e da sociedade.

Ele ainda defende, na entrevista abaixo, a descriminalização controlada das drogas, o que, diz, poderia reduzir o tráfico e seus custos sociais.

Folha - A legalização do uso de drogas é uma medida eficaz para combater o narcotráfico?

Klaus von LampeEm primeiro lugar, não acho, por várias razões, que uma legalização total de todas as drogas seja praticável. O que é mais viável é a descriminalização, juntamente com um alto nível de regulação. Em segundo lugar, o número de consumidores, o impacto negativo sobre eles, os custos sociais do uso de drogas e o volume do tráfico poderiam ser reduzidos significativamente fornecendo o acesso legal às drogas atualmente ilegais. Todas as pesquisas sobre os efeitos da oferta controlada de drogas aos consumidores -como a heroína dada aos viciados em heroína- indicam que isso apresenta mais vantagens que desvantagens.

Folha - Que drogas dão mais dinheiro ao crime organizado?

Klaus von Lampe - Depende do fornecimento, da demanda e dos traficantes de drogas. Quanto mais elevados são a intensidade da aplicação da lei e os custos de transporte, mais elevado será o valor por unidade. Por isso os traficantes colombianos trocaram a maconha por cocaína quando os EUA intensificaram os esforços contra o contrabando na região do Caribe. A maconha era, simplesmente, muito volumosa.

Folha - O que sustenta o fluxo do tráfico de drogas?

Klaus von Lampe - Oferta e procura, e também um número justo de coincidências entre os meios de transporte, os contatos pessoais, as preferências e as habilidades dos traficantes.

Folha - No Brasil, organizações como o Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e o Comando Vermelho, no Rio, agem mesmo com vários de seus líderes presos. Como o sistema carcerário e a legislação penal contribuem para o fortalecimento do crime organizado?

Klaus von Lampe - Há diversos exemplos, historicamente, de organizações criminosas (e, de forma geral, de redes criminosas) que estão sendo formadas dentro das prisões. Isso não é uma surpresa, a prisão é um lugar de encontro para pessoas que pensam de modo parecido. O fenômeno das gangues nas prisões parece ter relação, em parte, com superlotação e conflitos entre os detentos. A solução óbvia seria reduzir a superlotação nas prisões, procurando alternativas ao aprisionamento e/ou expandindo as capacidades do sistema carcerário.

Folha - Qual deve ser a responsabilidade do Estado no combate às organizações criminosas?

Klaus von Lampe - É importante que a pressão na aplicação da lei em criminosos seja elevada. A polícia precisa de determinadas ferramentas de investigação para ser eficaz. Além dos meios repressivos, a polícia e a sociedade devem desenvolver medidas preventivas contra a logística de grupos criminosos, reduzindo as oportunidades para o crime organizado e para os criminosos se estabelecerem e manterem contatos com outros criminosos.

Folha - Sua tese de doutorado trata do conceito americano de “crime organizado”. Como nasceu o crime organizado nas sociedades modernas? A vida urbana foi fundamental para isso?

Klaus von Lampe - Eu examinei o conceito de crime organizado, que foi consistentemente usado no discurso político sobre o crime desde 1919, começando em Chicago [EUA]. Mas ele não é confinado necessariamente aos ambientes urbanos.

Folha - Em áreas dominadas pelo tráfico de drogas em cidades como o Rio de Janeiro, organizações criminosas têm influência na comunidade local. Pode haver mudanças na percepção social do crime dentro e fora da área controlada?

Klaus von Lampe - Traficantes de drogas controlando um território são um problema que, acho, precisa ser visto sob diferentes ângulos. É preciso focar membros individuais, a gangue e seus símbolos, o contexto situacional de lugares de encontro, o transporte, o armazenamento e a venda das drogas. É preciso identificar os problemas sociais que conduzem à tolerância e à aceitação de traficantes de drogas em comunidades, a ponto de serem imitados pelos jovens. Não há nenhuma solução aplicável de maneira geral. É preciso sempre olhar a situação específica.

Folha - Como funciona a estrutura de poder do crime organizado?

Klaus von Lampe - Há diferentes manifestações do crime organizado. Na maior parte da Europa Ocidental, o crime organizado está ligado ao fornecimento de mercadorias e serviços ilícitos, e atividades como fraude, roubo, saque e extorsão. Em algumas regiões da Europa e dos EUA, esses crimes ocorrem no contexto de um “governo do submundo”, isto é, estruturas mais ou menos formalizadas que controlam e regulam atividades ilegais. Normalmente, nesses casos, os criminosos são forçados a compartilhar seus lucros ilegais com os grupos que se especializam no uso da violência e podem receber, em retorno, benefícios como proteção. Às vezes, há uma sobreposição entre empresas ilegais e o “governo do submundo” -por exemplo, quando membros de uma família da máfia na Sicília (Cosa Nostra) estão envolvidos no tráfico de drogas. Às vezes, os grupos começam como empresas ilegais e procuram ganhar o controle sobre um território. Eles estabelecem então um monopólio ou licenciam as atividades de outros criminosos. Por exemplo, um grupo do tráfico permite a um número limitado de indivíduos vender drogas em um determinado território. Em algumas regiões da Europa -e, historicamente, também nos EUA- há uma aliança entre o mundo e o submundo. Os criminosos colaboram com políticos e homens de negócios. Tais alianças emergem quando os governos e a sociedade civil são fracos. Os interesses particulares e políticos são perseguidos, mesmo violando a ordem legal e constitucional existente. Criminosos geralmente prestam serviços às elites sociais. Quando essas alianças se rompem, como no caso do cartel de Medellín [na Colômbia] e da máfia siciliana no começo dos anos 90, as elites políticas e dos negócios prevalecem no conflito militar subsequente, porque as elites sociais podem fazer todo o uso de recursos estatais (incluindo a polícia e as Forças Armadas).

Folha - Quais são as diferenças entre o crime organizado na Europa e nos Estados Unidos?

Klaus von Lampe - As organizações criminosas na Europa e nos EUA se enquadram em três categorias amplas: empresas ilegais, associações criminosas e “governo do submundo”.

Empresas ilegais, como grupos que realizam tráfico de drogas, tendem a ser pequenas e encaixadas em redes criminosas maiores.

Associações criminosas fornecem status e sustentação mútua e atendem, indiretamente, atividades econômicas ilícitas dos seus membros.

Elas regulam o comportamento entre os membros, como uma associação profissional, e podem desenvolver uma estrutura hierárquica.

“Governos do submundo” precisam ter uma estrutura hierárquica para evitar o conflito interno e trabalhar efetivamente. Eles também precisam ser reconhecíveis.

Em muitos casos, isso é conseguido por meio de alguns símbolos.

Associações criminosas podem funcionar como “governos do submundo”.

Em contraste, as demandas na estrutura da organização são bastante diferentes para empresas ilegais e outras formas de organização criminosa, de modo que elas raramente aparecem como uma organização.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sexo, drogas e geoengenharia

Autores de "Freakonomics" voltam à carga em livro que argumenta que é inútil reprimir a prostituição e o narcotráfico


A prostituição está em decadência. Em poucas décadas, os salários despencaram, junto com o número de profissionais. O culpado? O feminismo.

Afinal, as independentes mulheres contemporâneas que fazem sexo sem compromisso e de graça impuseram uma concorrência desleal às que desejam cobrar pelo serviço.

Quem disso isso são o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner, autores de "SuperFreakonomics". O livro, recém-lançado, é uma continuação do best-seller "Freakonomics", de 2005.

No primeiro livro, a dupla fez barulho ao dizer que existe correlação entre a liberação do aborto nos EUA nos anos 1970 e a queda nos crimes após duas décadas. No segundo, dedicam um capítulo à prostituição.

O sexo era encarado de forma muito diferente no começo do século passado, dizem. Havia mais pudor. Agendas repletas de telefones à disposição para uma noite mais empolgada não existiam. Festas eram um evento social, e não sexual -agradeça, portanto, por não ter nascido naquela época.

Para cada quatro homens que diziam ter perdido a virgindade com prostitutas entre 1933 e 1942, hoje há apenas um. Além disso, a prostituição era -e ainda é- ilegal na maioria dos EUA. A clandestinidade fazia com que a oferta de garotas de programa diminuísse.

Quando a demanda é alta e a oferta pequena, o resultado é óbvio. Prostitutas de Chicago ganhavam nos anos 1910 mais de US$ 6.000 por mês, em valores corrigidos. As melhores faziam mais de US$ 35 mil.

Ainda há prostituição de luxo, claro. Mas ela é apenas uma fração do que já foi. Garotas de programa se espalharam pelas ruas, o ambiente ao seu redor se encheu de viciados. Elas próprias passaram a usar bem mais drogas.

Imposto sobre serviço

Apesar de a prostituição ainda ser proibida, a polícia raramente cria problemas com as meninas. Ainda porque, hoje em dia, afirmam os autores, cerca de 3% dos "encontros" das prostitutas de rua de Chicago são com policiais e de graça -um suborno sexual.

Como dizem os autores, "os dados não mentem: é muito mais provável que as prostitutas de rua de Chicago façam sexo com os policiais do que sejam presas por eles".

Aí surge uma questão: se os policiais fossem realmente duros com a prostituição -ao melhor estilo tolerância zero-, será que ela desapareceria?

Não. Porque não adianta prender quem oferece o serviço. Quanto mais isso é feito, menor fica a oferta. Sobem, então, os preços. Quanto mais as prostitutas ganham, mais meninas entram na profissão.

Neste caso, portanto, você pode fazer a lei mais rígida que quiser. Chegará um momento em que a recompensa financeira de passar por cima dela será tão forte que não adiantará.

A solução, então, seria reprimir os clientes. Aí se corta a demanda, em vez da oferta, e a prostituição sofre um golpe.

Mas é difícil prendê-los. Em primeiro lugar, são muitos. Mais: eles desaparecem com a mesma velocidade com que aparecem. É muito mais complicado pegar um cliente do que uma prostituta.

O interessante é que exatamente o mesmo raciocínio serve para as drogas. Quanto mais traficantes são presos, mais sobe a renda dos que restam. Acabe com todos, e o preço das drogas tenderá ao infinito, tornando o ofício mais tentador.

Outro assunto do livro é o aquecimento global. Os autores defendem que é melhor dar um jeito artificial de esfriar o planeta do que lutar contra as emissões de CO2.

A ideia é fazer artificialmente o que os vulcões fazem naturalmente. Quando vulcões muito grandes entram em erupção, o planeta esfria. Isso acontece porque eles jogam dióxido de enxofre na estratosfera - a geoengenharia humana poderia fazer isso, dizem.

É o capítulo que vem gerando mais polêmica. Algumas das críticas se relacionam com a ideia de que mexer na natureza mais ainda para resolver velhos problemas só vai servir para criar problemas novos e desconhecidos. Outras dizem que os cálculos são frouxos e que tudo não passa de um chute. Em geral, mesmo entusiastas da geoengenharia não descartam a importância de reduzir o CO2.

Ciumeira

Levitt e Dubner apresentam uma mágoa. É duro gostar de microeconomia -essa economia que lida com o cotidiano, com as escolhas individuais. São sempre os macroeconomistas, dizem, como seus papos sobre "inflação, recessões e choques financeiros", que estão sempre nos jornais. Quando economia vai bem, são gênios. Quando vai mal, idiotas. Mas não saem das manchetes.

Os livros, então, nada mais são do que uma tentativa de mostrar que, sim, existe economia além dos bancos centrais. Apareça com um banco de dados que os microeconomistas, dizem, estarão lá formulando hipóteses para explicá-los. Podem surgir bobagens, mas o resultado é, em geral, muito bom.

LIVRO - "SuperFreakonomics"

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A política do vale tudo

Em 1994, quando Collor foi absolvido pelo STF,
LULA disse: “Como cidadão brasileiro que tanto lutou para fazer a ética prevalecer na política, estou frustrado, possivelmente como milhões de brasileiros. Só espero que não apareça um trambiqueiro querendo anistiar Collor da condenação imposta pelo Senado”. A condenação era a inelegibilidade por oito anos.





IMAGENS DO LODAÇAL


Primeira imagem: Luiz Inácio Lula da Silva abraça Fernando Collor de Mello.
Ajuda-memória: Fernando Collor de Mello vem a ser aquele cidadão que, além de ter sido o único presidente afastado do cargo por falta de decoro em um país em que o decoro é artigo raríssimo, pagou a uma mulher para dizer na televisão que seu adversário (justamente Lula, naquele momento) quis obrigá-la a abortar da filha que ambos tiveram (Lurian).
Esse tipo de atitude é tão indecente, indecorosa, delinquencial que desqualifica qualquer pessoa para a vida pública (a rigor, também para a vida privada).
Não é, portanto, passível de perdão. Lula até poderia aceitar o apoio de Collor para fazer parte da maioria governista. Aceitou o apoio de tantos outros desqualificados que, um a mais, um a menos, nem se notaria.
Daí, no entanto, a abraçá-lo publicamente e a elogiá-lo vai uma distância que, percorrida, desqualifica também a vítima de antes.
Segunda imagem, a de ontem: Fernando Collor de Mello cumprimenta José Sarney.
Ajuda-memória: Fernando Collor de Mello vem a ser aquele cidadão que com maior virulência atacou o governo Sarney, a ponto de chamá-lo de ladrão, pelo que jamais pediu desculpas.
Sarney nunca escondeu o profundo rancor que sentia pelo seu desafeto, que, aliás, só se elegeu porque era o mais vociferante crítico de um presidente que batia recordes de impopularidade.
Ao abraçar Collor e aceitá-lo na sua tropa de choque, Sarney implicitamente dá atestado de validade aos ataques do Collor de 1989 e, por extensão, junta-se a ele na lama.
Que Collor, o indecoroso com condenação tramitada em julgado, ressurja com os mesmos tiques e indecências de antes compõe à perfeição o lodaçal putrefato que é a política brasileira.

CLÓVIS ROSSI



O ONTEM E O HOJE

Os jornais mostraram a foto de um raivoso Fernando Collor, ex-presidente da República e atualmente senador pelo estado de Alagoas, com o dedo em riste contra o senador Pedro Simon (PMDB-RS). Simon pedia, mais uma vez, a renúncia de Sarney. Collor, em defesa de Sarney, dizia o seguinte enquanto apontava seu dedo:

“Eu não aceito, com a responsabilidade de ex-presidente da República, que se trate desta forma um homem (Sarney) que governou o Brasil, que cumpriu a transição democrática com grandeza e maestria, e que hoje está sendo vitimado por acusações de toda a natureza. Eu sei o que é isso porque eu por isso passei. Em muito maior escala. Eu sei como tudo isso é forjado, sei como tudo isso nasce, como tudo isso desabrocha. E eu sei a quem interessa que o Senado retire daquela cadeira o presidente que todos nós elegemos e que vai cumprir seu mandato até o último dia que foi eleito”.

No mesmo dia, começou a circular um vídeo no YouTube. Trata-se de um discurso de Collor, do horário eleitoral de 1989. O tema é… José Sarney.





quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A guerra às drogas fracassou

De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
(Outros Sonhos, Chibo Buarque).



PERMITIR O acesso às drogas: essa hipótese assusta qualquer pessoa de bom senso. Melhor que não haja acesso. Melhor ainda seria que nem sequer houvesse drogas. Mas não é essa a realidade.

A proibição prevista em lei não vigora. Drogas são vendidas em toda parte em que há demanda, independentemente da qualidade das polícias e dos gastos investidos na repressão. A guerra às drogas fracassou.

Como os EUA demonstraram ao vencer a Guerra Fria, nenhuma força detém o mercado. Pode-se apenas submetê-lo a regulamentações. É irônico que esse mesmo país defenda a erradicação das drogas ilícitas.

Eis o resultado do proibicionismo: crescem o tráfico, a corrupção e o consumo.

Estigmatizados, os usuários padecem da ignorância sobre as substâncias que ingerem, escondem-se, em vez de buscar ajuda, e, mesmo quando não passam de consumidores eventuais, involuntariamente alimentam a dinâmica da violência armada e do crime que se organiza, penetrando instituições públicas.

Além disso, o Estado impõe aos escolhidos e classificados como "traficantes" -pelo filtro seletivo de nosso aparato de segurança e Justiça criminal- o futuro que pretende evitar: a carreira criminal. Digo "escolhidos" porque se sabe que a mesma quantidade de droga pode ser avaliada como provisão para consumo (quando o "réu" é branco de classe média) ou evidência de tráfico (quando o "preso" é pobre e negro).

Retornemos à primeira evidência: o acesso às drogas -não o impedimento- é a realidade.

Ora, se essa é a realidade e nenhum fator manejável, no campo da Justiça criminal, pode incidir sobre sua existência para alterá-la, a pergunta pertinente deixa de ser: "Deveríamos proibir o acesso às drogas?". Trata-se de indagar: "Em que ambiente institucional legal o acesso provocaria menos danos? Que política de drogas e qual repertório normativo seriam mais efetivos para reduzir custos agregados, sofrimento humano e violência?".

Há ainda uma dimensão não pragmática a considerar. Não considero legítimo que o Estado intervenha na liberdade individual e reprima o uso privado de substâncias -álcool, tabaco ou maconha.

A ausência do álcool no debate -droga cujos efeitos têm sido os mais devastadores- revela a artificialidade (alguns diriam a hipocrisia) das abordagens predominantes.

Se o atual modelo foi derrotado pelos fatos, qual seria a alternativa? Proponho a legalização das drogas, e não apenas a flexibilização na abordagem do consumidor. O tráfico deveria passar a ser legal e regulado.

Isso resolve o problema das drogas? Não, mas o situa no campo em que pode ser enfrentado com mais racionalidade e menos injustiça -e menos violência, ainda que esse seja só mais um argumento, e não a única ou principal justificativa para a legalização.

Há quem considere que uma eventual legalização não exerceria impacto sobre a violência, uma vez que os criminosos migrariam para outras práticas. Discordo.

Acho que o efeito da legalização não seria desprezível porque: 1) sem drogas, seria mais difícil financiar as armas; 2) mudaria a dinâmica de recrutamento para o crime, que perderia vigor, pois outros crimes envolvem outras modalidades organizativas e outras linguagens simbólicas, muito menos sedutoras e acessíveis aos pré-adolescentes; 3) entraria em colapso a maldição do crack e seus efeitos violentos; 4) se esgotaria a principal fonte de corrupção; 5) finalmente, como pesquisas demonstram, em cada processo de migração, o crime perderia força e capacidade de reprodução.

Opiniões respeitáveis aprovam esses argumentos, mas alertam: nada podemos fazer antes que o mundo se ponha de acordo e decida avançar rumo à legalização das drogas. Discordo.

Se não nos movermos, não ajudaremos o mundo a se mover. Com prudência, mas também com audácia, temos de nos rebelar contra esse perverso relicário de iniquidades.

Luiz Eduardo Soares é professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da Universidade Estácio de Sá. Foi secretário nacional de Segurança Pública (2003).

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Aprender é ter insights

A educação opera lentamente,
de modo evolucionário.
Nao cria utopias repentinas.
Não oferece remédios mágicos.
Não faz promessas categórias.
Exige esforço e disciplina.
Desperta o homem para suas próprias potencialidades criativas.
A educação, considerada corretamente,
é o instrumento de sobrevivencia
mais formidável que o homem possui.
(Frederick Mayer).



A máquina de fazer salsichas


O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O objetivo será avaliar o que sobrou

UM HOMEM RESOLVEU dedicar-se à produção de salsichas. Aconselhando-se com técnicos e cientistas, foi informado de que o que havia de mais moderno para tal fim era uma máquina importada de fazer salsichas. Ele não titubeou: comprou a dita máquina porque queria ser um produtor de salsichas bem sucedido.


A máquina era assim: numa extremidade, havia um grande funil onde a carne deveria ser colocada. Apertava-se um botão e a máquina começava a funcionar. Na outra extremidade, fim do processo, saíam as salsichas gordas e vermelhas.


Mas não basta que a máquina produza salsichas. É preciso que a produção seja comercialmente vantajosa. E como se avalia isso? Comparando-se os quilos de carne colocados no funil inicial com os quilos de salsicha que saem na extremidade final da máquina. Se, na entrada, se colocam cem quilos de carne e saem 95 quilos de salsichas, a máquina é ótima. Mas se só saírem dez quilos de salsichas, a máquina não presta.


Não estou procurando sócios para uma aventura econômica. Minha coisa é a educação. E pensei que a educação poderia ser avaliada por um exame parecido com a máquina de salsichas -que comparasse os "quilos" de saberes que as escolas colocam nos olhos, ouvidos e memória da "máquina" chamada "aluno" com o que "sobra" ao final.


As escolas colocaram muita coisa dentro do meu funil, nos 17 anos que as frequentei. Quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior.


Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei a 16.830 -o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo a fala dos professores.


O exame -um tipo de Enem- seria assim: Primeiro: o programa para o exame seria constituído de tudo o que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano. O que foi colocado no funil.


Segundo: os alunos não assinarão os seus nomes porque não são eles que estão sendo avaliados, mas o desempenho da máquina, isto é, do sistema escolar.


Terceiro: não haverá "cursinhos" preparatórios para tais exames. Será proibido também recordar a matéria. Guarde isso: o aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O objetivo do exame será avaliar o que sobrou.


Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes "dolomitas" e "piroclásticas", mas não sei o que significam. Esqueci-me do "crivo de Erastóstenes". Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda.
Também me esqueci das dinastias dos faraós. Não sei a lei de Avogadro.


Sei pouquíssimo de análise sintática. Acho que, dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim, só sobrariam uns 10%.


Você depositaria suas economias mensalmente num fundo de investimento, por 17 anos, se você soubesse que depois desses 17 anos receberia só 10% do que você depositou?


Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros, que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos.


Acho mesmo é que a culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estragada. As salsichas cheiram mal.


O nariz as reprova. O jeito é vomitá-las, isto é, esquecê-las. Concluo: a performance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produza salsichas apetitosas...


RUBEM ALVES