domingo, 19 de fevereiro de 2012

O jogo dos acasos


É que viver é assim: o acaso promove os encontros e a necessidade os integra em nossa vida ou não


Foi por acaso que Valdomiro veio a se chamar Valdomiro, já que, por decisão da mãe, ia chamar-se Valdir. Sucedeu que o pai, a caminho do cartório onde faria o registro de seu nascimento, em vez de seguir por uma rua, seguiu por outra e, nessa, deparou-se com a seguinte pichação num muro: "Vote em Valdomiro, amigo dos pobres".


Foi o bastante para mudar de ideia e pôr no filho o nome do político que admirava. Mas não disse nada a sua mulher, que ficou chamando Valdomiro de Valdir até o dia em que descobriu o engano. E foi também por acaso que, em vez de estudar sanitarismo, estudou contabilidade, matéria em que se formou e passou a ganhar a vida.


"Meu sonho era ser sanitarista, mas o professor que ensinava essa matéria morreu no dia mesmo em que me matriculei no curso, que foi cancelado temporariamente. Como Jorginho, meu primo, havia escolhido estudar contabilidade, segui a sugestão dele e, assim, me tornei contador", contou ele certa vez.


Não menos inesperado foi seu encontro com a moça que se tornaria sua mulher. Aconteceu numa festa de São João, numa cidade vizinha; festa à qual não iria até que a família inteira seguiu para lá. De má vontade concordou em ir somente porque não queria ficar sozinho em casa. Pois bem, ali conheceu Julinha, que também não era da cidade e só foi a convite de uma irmã. Amor à primeira vista, pois já se despediram com encontro marcado para a semana seguinte, na cidade dele.


Pois é, mas isso não teria maiores consequências se com ela não houvesse ocorrido um fato que viria precipitar seu namoro com Valdomiro: rompera recentemente um noivado que já durava vários anos, devido a suas hesitações. Poucos meses antes de conhecer Valdomiro, tomara coragem e rompera: "Eu gostava dele como amigo, mas não para ser meu marido".


Foi um escândalo nas duas famílias, na dela e na do noivo, que já se tinham como uma só. Para livrar-se do incômodo que essa situação lhe causava, passou a viajar sempre que podia, mesmo que fosse para passar apenas alguns dias distante daquilo. A decisão de casar-se com Valdomiro foi certamente um modo de pôr fim àquela situação. É que viver é assim mesmo: o acaso promove os encontros, e a necessidade os integra em nossa vida ou não. Isso significa que, naquelas circunstâncias, ela se casaria com qualquer um? Não se sabe. A verdade é que com Valdomiro ela se casou.


E mudou a vida dele que, de fato, não estava à procura de uma mulher. Ou, se estava, não se tinha dado conta, mesmo porque, muitas vezes, são os acontecimentos que nos revelam o que estávamos buscando sem o sabermos. A ida do casal para o Rio foi facilitada por um tio de Julinha, que tinha uma firma de representação na rua da Alfândega. Esse tio arranjou para Valdomiro fazer alguns bicos, ora na sua própria firma -que não era grande-, ora em outras que negociavam com ele.


Valdomiro alugou um pequeno apartamento no Catete, e Julinha conseguiu um emprego num salão de beleza ali perto. Aos domingos, pegavam o metrô e iam à praia de Copacabana tomar banho de mar.


E foi na praia que ele conheceu um cara simpático, com quem passou a jogar frescobol e que o convenceu a fazer um curso de aperfeiçoamento profissional para conseguir um emprego numa firma importante que lhe pagasse bem e onde pudesse fazer carreira. O curso era noturno e dado num edifício do centro da cidade, próximo ao Theatro Municipal, mais precisamente no edifício Liberdade, que ficava na rua 13 de Maio, 44. As aulas começariam dali a um mês.


Acertou tudo, a primeira aula seria no dia 25 de janeiro. Mas aquele foi um dia estafante e, se dependesse de sua vontade, ficaria em casa, deitado no sofá, vendo televisão. Chegou a dizer isso a Julinha, mas ela, que via naquele curso um caminho para melhorarem de vida, convenceu-o a ir à tal aula.


Vestiu-se e saiu para tomar o metrô que o levaria à estação Cinelândia, próxima à rua 13 de Maio, mas tamanho era seu cansaço que adormeceu e só foi acordar na estação Uruguaiana. Ansioso, tomou o trem de volta e desceu no Largo da Carioca, no momento exato em que o prédio para onde ia desabava.

 Ferreira Gullar

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Preconceitos

O 'politicamente correto' impede o raciocínio;
o novo senso comum diz que todos os preconceitos são errados


A palavra inglesa (também do latim) prejudice é mais precisa do que a nossa, pois sugere julgamento antecipado e prejuízo, dano. Já preconceito fala de um conceito pré-formado. Ora, você que está vendo essas manchas de tinta no jornal só entende o que quero dizer porque tem um conceito pré-formado (na escola e na vida) de como elas soam e o que significam. Ou seja, passamos a vida usando conceitos pré-formados que lhe dão sentido e que a salvam (quando você só atravessa no sinal verde, por exemplo).

O clima do "politicamente correto" em que nos mergulharam impede o raciocínio. Este novo senso comum diz que todos os preconceitos são errados. Ao que um amigo observou: "Então vocês têm preconceito contra os preconceitos". Ele demonstrava que é impossível não ter preconceitos, que vivemos com eles, e que grande quantidade deles nos é útil. Estatisticamente úteis. Você entraria sozinho num elevador que só portasse um tipo muito mal-encarado? Está vendo? Eu não disse "pitboy marombado, cheio de piercings e tatuagens, com cabelo moicano". Bastou dizer "tipo mal-encarado" que você pensou "Melhor não...". E se ele for uma flor de pessoa? Mas a estatística diz que não, melhor não ("forma é conteúdo", dizem os filósofos).

É noite, a rua é mal iluminada, e na sua direção, na mesma calçada vem um senhor negro de terno carregando uma pasta de trabalho. Por acaso seu coração dispara e você muda de calçada? Não, porque usou seus preconceitos, ainda que ele possa ser o assassino do parque ("Pouco provável", dirá você, usando a estatística a seu favor).

Mas, afinal, quais preconceitos são pré-julgamentos danosos? São aqueles que carregam um juízo de valor depreciativo e hostil. Lembre-se do seu tempo de colégio. Quem era alvo dos bullies? Os diferentes. Pense nos apelidos: girafa; pintor de rodapé; rolha de poço; Pelé, tição; quatro-olho; nerd, CDF; "mulerzinha". Um amigo sardento era chamado de "arroto de Fanta"! As crianças parecem repetir a história da humanidade: nascem trogloditas, violentas, cruéis com quem não é da tribo, e vão se civilizando aos poucos. Alguns, nem tanto. Serão os que vão conservar esses rótulos pétreos, imutáveis, muitas vezes carregados de ódio contra os "diferentes", e difíceis (se não impossíveis) de mudar.

O curioso é que existem preconceitos a favor. As pessoas belas são talvez o maior exemplo. Mas esses costumam mudar com relativa facilidade. Não demora muito para você descobrir que aquele Apolo tem um caráter questionável, e o preconceito já vai mudando. O problema são os preconceitos contra que resistem a tudo, impedindo que você veja a pessoa, o indivíduo, que deixa assim de ser "essa gente". O preconceito danoso sempre considera tribos, ou grupos, "os diferentes são todos iguais", sempre referidos como "eles".

São esses preconceitos que devem ser punidos como crime, quando causam dano a alguém. Outra coisa bem diversa é um preconceito que percebemos em nós, mas cuidamos de questioná-lo e não deixar que ele transborde como prática.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Temaki, liberdade e fraternidade

Nossas elites não estavam todas lendo James Joyce
quando foram atropeladas pelas hordas emergentes


Outro dia uma amiga tuitou: "Temaki de goiabada com cream cheese: pode?". Conhecendo bem minha amiga, logo entendi que não se tratava de uma censura gastronômica, mas de uma irônica indagação sociológica, como se este rolo de alga, doce e queijo cremoso nos lançasse, das encruzilhadas do país, seu desafio de esfinge: "Decifra-me ou devoro-te".

Às vezes um temaki é apenas um temaki -às vezes, não. Esta versão Romeu & Julieta é reflexo da ascensão econômica de milhões de brasileiros: uma canoinha tricolor trepidando no centro da pororoca social; uma insolente dentada do gosto popular nas pudibundas nádegas da sofisticação. Que marcas deixará essa mordida? Não sei muito bem, mas desconfio que se olharmos através deste temaki como quem espia por uma luneta -pupila no orifício menor do cone, o maior apontado para o mundo, cuidado para não lambuzar os cílios- talvez consigamos enxergar algo do Brasil que se aproxima.

Para os arautos do apocalipse, aqueles que veem neste sincretismo culinário (como, aliás, em todo sincretismo) um sinal do fim dos tempos, a classe C está invadindo o país com seu mau gosto e falta de educação, deixando por onde passa um rastro de Fandangos e acordes de Michel Teló. Aterrorizados ao verem o real e a melanina escorrendo para cima através das classes sociais, soltam resmungos como "esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!" e sonham com os dias tão próximos e distantes em que a "gente diferenciada" queria emprego de doméstica, não estação de metrô.

Ora, quem pensa que o gosto da classe C ameaça uma suposta sofisticação estética não entendeu patavina do Brasil.

Em primeiro lugar, nossas elites não estavam todas escutando Mahler e lendo James Joyce até outro dia, quando foram atropeladas pelas hordas emergentes, de isopor no ombro e pré-pago na mão.

Em segundo, grande parte do que produzimos de culturalmente mais valioso, de Pixinguinha a Tom Jobim, de Aleijadinho à Tarsila do Amaral, do vatapá aos pratos do Alex Atala, é fruto do encontro do popular com o erudito, não de puristas isolados em torres de marfim. Foi isso o que os modernistas bradaram aos quatro ventos -já faz quase cem anos-, isso que os tropicalistas repetiram e remodelaram -lá se vão mais de quatro décadas-, mas que uma parte recalcitrante dos brasileiros se recusa a aceitar, ainda com delírios de um imorredouro projeto branqueador.

Não estou sendo ufanista. Estou sendo classista: classimedista. Lembremos de outro país onde a mistura de raças e heranças culturais, mais a criação de uma sólida classe média com o New Deal, a partir dos anos 1930, legou ao mundo o rock, o blues, o jazz, um bom quinhão do melhor cinema e da melhor literatura produzidos no século 20, além desse saudável desrespeito à tradição, pré-requisito para uma sociedade que se pretende igualitária.

Desrespeito que a gente vê num solo do Charlie Parker ou, por exemplo, num temaki de goiabada com cream cheese. Pode não ser a minha comida favorita, mas por que é que o meu gosto deveria se impor aos demais? Democracia é isso aí, pessoal. Que bom.

ANTONIO PRATA

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ainda o jeito PSDB de ser...

Governo de SP trata golpe militar de 'Revolução'


Secretaria retirou texto do ar e disse que conteúdo não reflete pensamento da administração 


FOLHA DE SAO PAULO




A Secretaria da Segurança Pública do governo de São Paulo tratou o golpe militar de 1964 como "Revolução de Março" e afirmou que ela foi "desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart".

A informação estava na página da secretaria na internet até as 19h de ontem, quando foi suprimida. A Folha havia questionado a secretaria pouco antes de o texto sair do ar.

Por meio da assessoria da pasta, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou que "o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria da Segurança Pública e foi retirado do site". O órgão não informou desde quando o conteúdo estava no ar.

O texto aparecia na seção "Institucional - Histórico" e afirmava que "em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio da Silva Quadros renunciou a seu mandato. Em 31 de março de 1964 iniciou-se a revolução, desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart. Força Pública e Guarda Civil puseram-se solidárias às autoridades e ao povo".

O termo "revolução" é usado por militares que negam que tenha havido uma ditadura no país de 1964 a 1985.

A imagem ao lado do texto era uma ilustração de pessoas carregando uma faixa com os dizeres: "Marcha da família com Deus pela liberdade".

A marcha foi uma manifestação contra o então presidente João Goulart, que aconteceu na cidade de São Paulo 12 dias antes do golpe que o tirou do poder.
 

POLÍCIA MILITAR


O site da Polícia Militar de São Paulo trata o golpe de maneira semelhante. A seção sobre o brasão de armas da corporação diz que a 18ª estrela do escudo se refere a "1964, Revolução de Março".

Nos últimos dias, a corporação foi alvo de protestos que a acusam de ter cometido abusos na operação realizada na chamada cracolândia, na capital, e na reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos. O governo diz que possíveis exageros serão punidos.

Jeito PSDB de ser...

Estatal de SP culpa 'morador de favela' por defeito em casas

 Imóveis entregues por Alckmin em dezembro continuam com problemas, apesar de construtora ter prometido solução
Segundo diretor da CDHU, houve possível mau uso por moradores, que deveriam passar por orientação social 

 GABRIELA YAMADA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE SÃO PAULO, DE RIBEIRÃO PRETO


Ao constatar que casas entregues pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) em Ribeirão Preto (SP) continuam com problemas, um dirigente da CDHU (órgão estadual de habitação) responsabilizou ontem os moradores pelos defeitos.

No dia 4, após a Folha revelar diversas falhas no conjunto habitacional Paulo Gomes Romeu, a Croma -construtora responsável pela obra- disse que resolveria os problemas em 20 dias.

Parte das casas foi entregue por Alckmin no final de dezembro e dias depois já apresentava as falhas.
A reportagem voltou ao local ontem e anteontem e constatou que 12 de 16 casas continuam com problemas, como vazamentos nas pias, fissuras nas paredes e portas e janelas que não fecham.
Em visita ao conjunto na manhã de ontem, Milton Vieira de Souza Leite, diretor regional da CDHU, disse que os problemas são possíveis reflexos de mau uso.

"A gente conhece o nível de educação [dos moradores]... O pessoal veio da favela. Não está acostumado a viver em casa", afirmou.

Depois, questionado por telefone sobre a frase, ele disse que a adequação desses moradores no conjunto é uma questão complexa.

"Você não consegue mudar a educação delas [famílias] somente mudando de local." Segundo ele, seria preciso um trabalho social a longo prazo para resolver isso.

Leite foi ao conjunto habitacional ontem após a Folha ter entrado em contato com a CDHU na quarta-feira para questionar sobre a continuidade dos problemas.

Sobre o caso de um morador que afirmou à reportagem, no início do mês, que a pia da cozinha havia caído depois de ele ter colocado uma cesta básica sobre ela, Leite ironizou o episódio.

"O que ele foi comer era outra coisa", disse, insinuando que a pia caiu durante uma relação sexual.
A frase foi dita em entrevista gravada na frente de oito pessoas, entre elas funcionários da CDHU e da Croma.

Durante a visita, em duas casas havia moradores dormindo, fato também questionado por Leite. "Você viu? Não sei se eles estavam dormindo porque trabalharam à noite ou porque continuam sem fazer nada."

Leite afirmou que todos os problemas apontados serão reparados pela construtora e que "o benefício está sendo muito maior que o sacrifício".

Na casa de Lucimara Aparecida de Oliveira, 29, foi constatado o pior caso, de fissuras no entorno de portas e janelas. Elas estão abrindo "buracos" no entorno das portas dos quartos e da janela da sala.
Sobre isso, Leite disse que o problema pode ter sido causado por batidas repetidas das portas.

"Eu acho um absurdo. Aqui ninguém ganhou casa, está todo mundo pagando", disse Lucimara.
Os beneficiários do programa pagam mensalidades que vão de R$ 50 a R$ 150.

A dona de casa Alessandra dos Santos Fernandes, 32, sofre com problemas de vazamentos nas pias do banheiro e da cozinha desde quando se mudou, em dezembro. "Já vieram arrumar, mas piorou. A casa fica sempre suja."

 

"A gente conhece o nível de educação [dos moradores]. O pessoal veio da favela. Não está acostumado a viver em casa
Você não consegue mudar a educação delas somente mudando de local"
MILTON VIEIRA DE SOUZA LEITE
diretor regional da CDHU



"ABSURDO"

Moradores do Paulo Gomes Romeo se dizem revoltados e ofendidos com as declarações do ex-dirigente.

"Eu sou faxineira. Cuido da minha casa da mesma forma que cuido da casa do meu patrão. Mas lá as paredes não lascam e não têm problema", afirmou, chorando, Luciana Regina Maranhão, 36.

Visivelmente abalada com as declarações, a dona de casa Lucimara Aparecida de Oliveira, 29, disse que se sentiu vítima de preconceito pela CDHU. "Não é porque viemos das favelas que não temos educação", afirmou.

Operação Pinheirinho 3

Operação desastrosa


A julgar pelos resultados, a operação policial no Pinheirinho foi desastrosa: algumas pessoas saíram machucadas, famílias ficaram sem ter onde morar e o "imbróglio" judicial em torno da massa falida da Selecta não ficou mais perto do fim.

Boa parte das consequências era previsível antes de o juiz assinar a reintegração de posse e a polícia executá-la. A pergunta é: por que tanta gente participou de uma ação da qual claramente resultaria mais mal do que bem? Respondê-la é tarefa para os novos cientistas do mal, pesquisadores como Roy Baumeister, que se dedicam a estudar como a violência brota e se espalha pela sociedade.

Entre várias descobertas e "insights" valiosos, Baumeister mostra que um modo eficaz de arrebanhar perpetradores para ações cruéis é dividir a responsabilidade, de preferência entre muitos atores, incluindo figuras de autoridade. A psicologia de grupo ensina que, nessas situações, poucos ousarão levantar a voz para denunciar a imoralidade e, como ninguém se sentirá pessoalmente responsável, não deverá opor muita resistência em tomar parte no processo.

Uma receita quase infalível é a preconizada pelo sistema: um juiz defere a reintegração e não tem mais nada a ver com isso; o governador manda a polícia cumprir a determinação judicial e sai de cena; o comandante ordena à tropa que aja, e os soldados, que têm juízo, obedecem. Ninguém é responsável sozinho e, por isso, fica fácil espancar uns pobres diabos e pôr famílias no olho da rua.

Muitas vezes, essa divisão do trabalho e das responsabilidades funciona para o bem, mas nem sempre. Se a ideia é fazer justiça e não só cumprir leis, juízes talvez devessem visitar as áreas a ser reintegradas e conversar com os moradores antes de assinar despachos. Os americanos chamam isso de "igual consideração de interesses", um princípio moral que alguns filósofos consideram tão ou mais importante que a própria noção de direitos.


HELIO SCHWARTSMAN

Operação Pinheirinho 2

 Miséria tucana e urbana


 A violência da polícia e a ausência de preparação para dar abrigo às famílias expulsas na desocupação do Pinheirinho indicam que o PSDB paulista interpretou de forma literal o artigo em que FHC dizia que o partido não iria longe se insistisse em disputar influência sobre o "povão" e os movimentos sociais.


Mas o episódio não veio só confirmar o reacionarismo crescente de líderes tucanos e lançar gasolina na fogueira do PSTU -que, no vácuo de um PT acomodado, liderava o movimento pela posse da área. Ele joga luz sobre um problema de todas as cidades do país, em maior ou menor grau.
Trata-se da incapacidade política de implementar o Estatuto da Cidade -aprovado, aliás, no governo FHC. A lei dá instrumentos a prefeituras e Câmaras para conter a especulação imobiliária e prover moradia para os mais pobres em bairros com infraestrutura, evitando a formação de favelas e guetos periféricos.

Parte da massa falida de uma empresa que devia milhões em IPTU, o terreno do Pinheirinho era um caso óbvio de uso do estatuto. Se declarado zona especial de interesse social, seu preço cairia, facilitando a desapropriação e a regularização dos lotes ocupados há oito anos.

No entanto, até pouco antes da controvertida reintegração de posse ditada pela Justiça, a Prefeitura de São José dos Campos dizia que o impasse era entre invasores e proprietários. Revelava um desprezo pela função social da terra urbana que também explica, em última instância, por que tanta gente ainda mora e morre em áreas de risco na serra do Rio.

A ironia é que, do ponto de vista do mercado de consumo, parte dos ocupantes poderia ser enquadrada nas "novas classes médias" que FHC apontou como alvo preferencial do PSDB. Gente com mobília e eletrodomésticos novos, como se observa nas fotos, mas sem acesso à habitação legal.


CLAUDIA ANTUNES